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Sarajevo, a Jerusalém Européia  

Posted by carlos in

Era assim que seus moradores orgulhosamente se referiam a Sarajevo antes da guerra: a Jerusalém da Europa. Essa era a síntese de um povo pluralista, convivendo em harmonia antes que alguns doentes brutais, possuídores do poderio militar, conseguissem exacerbar o nervo nacionalista de uma minoria. Lar de cristãos católicos e ortodoxos, de uma maioria árabe e até de judeus (dos poucos que sobraram da segunda guerra mundial), ambos falando o mesmo idioma Eslavo servo-croata apesar das naturais diferenças de dialeto entre as etnias. A mistura era enorme antes da guerra: vizinhos de diferentes origens étnicas e as pessoas crescendo normalmente em círculos mixtos de amigos. Igrejas, catedrais e sinagogas partilhando o mesmo bairro com um maior número de mesquitas. Depois da guerra, uma maior separação geográfica ocorreu, mas que felizmente não minou a multiculturalidade da Jerusalém Européia.

Faz muito bem à alma caminhar por Sarajevo e por seu caleidoscópio de culturas, testemunha perene da história antiga e recente, de um holocausto judeu e outro islâmico. Oriente e ocidente lado a lado, na mesma rua. Ir nos cafés aonde os anciões se juntam de manhazinha; ir de noite nos bares e boates aonde a juventude vai curtir tanto música ocidental como árabe, seja portando suas vestimentas mais tradicionais ou algo mais modernoso; ver as marcas ainda claras do cerco, seja em prédios ainda não reconstruídos ou em muros de casas forrados de marcas de bala; caminhar pelas colinas que abrigaram os assassinos de outrora, e contemplar a cidade em seu vale lá embaixo ouvindo os cânticos ecoando dos autofalantes das mesquitas (isso nunca vai me sair da retina nem dos ouvidos); ver na mesma rua placas ou letreiros escritos em alfabeto Romano, Árabe e/ou Cirílico; ter esse meu primeiro contato com mesquitas, madrassas, e outras típicas instituições do mundo islâmico que viriam a se tornar comuns mais adiante em minha viagem; conhecer o cemitério judeu, o segundo maior da Europa (o primeiro fica em Praga), fechado a novos moradores desde 1966; arrebentar a alma em ver os inúmeros cemitérios islâmicos que se espalharam pela cidade depois da guerra, onde todas as lápides apresentam uma data de enterro em comum; conhecer a ponte Latina, onde Gavrilo Princip assassinou o herdeiro Habsburgo e criou a história do século XX.

Para aumentar ainda mais o fascínio, como se fosse preciso, quando eu subia uma colina para chegar a um daqueles cemitérios, que possui uma linda visão da cidade e do rio que a corta, encontrei duas garotinhas brincando num parque. Super tímidas, alegres, e curiosas, tentava me ´comunicar` com elas para que elas perdessem o receio e me deixassem roubar uma foto; só no retorno, consegui, para minha própria recordação do sorriso desse povo.

É com esse sorriso, e com a alegria de sua juventude nas ruas e bares, que Sarajevo continua a fascinar: há 15 anos atrás, completamente destroçada por parte de uma etnia que a habita; hoje, uma nova geração nas ruas (parida enquanto parte de seus pais defendiam sua cidade), estudando e trabalhando, seguindo a construir essa nação que tantas lições de humanismo tem a oferecer a quem quiser explorá-la. Eu fui embora com a promessa de voltar. E é de se ficar contente com o fato de Sarajevo ter passado a ser alvo de campanhas de organizações turísticas, com a cidade sendo eleita um dos destinos obrigatórios da Europa em 2010. Com isso, a aura de cidade perigosa dos anos 90 deve se acabar, e mais pessoas virão aprender um pouco das lições de tolerância que seus sobreviventes teimam em nos ensinar.

Será que eu deixei transparecer o quanto sou fã desse lugar? Ah é, faltaram as fotos.
O primeiro album é um apanhado de fotos pelas ruas; mesquitas (Imperador, Ferhadija, Gazi Husrev-Bey), ponte Latina, arquitetura pela cidade com seus principais prédios como Academia de Arte, Museus, Biblioteca, e Prefeitura, as ruelas de Bascarsija (centro antigo) com suas feiras e bazares, a velha sinagoga judia, as igrejas ortodoxa santa mãe de deus e católica sagrado coração de jesus.



Neste segundo album, o foco inicial é o Túnel da Esperança e seu museu-memorial, passando depois às visões panorâmicas da cidade e seu vale, tiradas de diversas posições a partir das colinas que a cercam, do cemitério judeu e de vários cemitérios islâmicos pós-guerra tendo, em contrapartida, o sorriso cativante das crianças Bósnias.



Bom, o difícil veio. Era tempo de ir embora e seguir viagem. Destino: o lado invasor, Sérvia.

Bósnia-Herzegovina: a singularidade da Europa, parte V  

Posted by carlos in

(...continuação)

Foi aí que tive um vislumbre maior de como a alma heterogênea de um povo pode suplantar as aspirações puristas de uma minoria. Por exemplo, fiquei sabendo que parte dos sérvios não foi embora (fosse por medo ou por apoio à invasão) quando as tropas chegaram, por simplesmente julgarem aquela sua cidade, e aquele seu povo. Mesmo sabendo que as tropas julgaríam como traídores e também mataríam os bósnio-sérvios que decidissem ficar, muitos ficaram, lutaram e morreram defendendo a cidade e a pátria tolerante da qual queriam continuar fazendo parte. É muito complexo aos olhos estrangeiros; mesmo depois de todo o terror a que foram submetidos por tropas sérvias, Bosniaks e Bósnio-Sérvios mantêm seus círculos de amizade e convivência, sem cultivar um clima de ´guetos` aonde as etnias não se misturariam; pelo contrário, o fato de famílias de ambas as etnias terem posto seu sangue na defesa da cidade é motivo de respeito mútuo. Claro que fica sempre a suspeita Bosniak que grupos em Sprska em breve mostrarão sua verdadeira face, e que tudo poderá recomeçar.

Ao menos, se isto de fato ocorrer, Sarajevo estará mais preparada. É de fato preciso muito cuidado com certa onda revisionista, a usar toda a celeuma anti-islâmica que tem sido propagada no Ocidente desde os ataques àquelas singelas duas torres nos EUA. Não é raro encontrar opiniões que tendem a generalizar os crimes da guerra da Bósnia, dizendo que atrocidades foram cometidas por ambos os lados e que o que se passou foi uma guerra civil inevitável; que esta seja a versão ensinada nas escolas Sérvias, é um fato infeliz a ser monitorado. Mas que fique por lá. Há de se ter claro que o que houve foi uma guerra de agressão, de invasão, de posse de território e de limpeza étnica perpetrada por uma minoria local com irrestrito apoio do país Sérvia. A maioria apenas votou por ter seu país multiétnico reconhecido, e se viu forçada a lutar para se defender de um invasor brutal. No decorrer da luta, quando a insanidade a tudo dominava, atrocidades também foram reconhecidamente cometidas por Bosniaks em vilas de minoria Sérvia, mas isso nunca foi algo que eles tivessem planejado ou desejado fazer quando proclamaram sua independência.

Foi pelo Túnel da Esperança que, além de mantimentos, os armamentos negados pela OTAN entraram em Sarajevo, via mercado negro, abastecendo a parcela da população-tornada-soldado da noite para o dia. Inúmeras foram as mortes daqueles que tentaram atravessar o túnel, assim como inúmeros civis morreram tentando atravessar o Sniper Alley: assim ficou conhecida a via principal da cidade aonde civis eram alvejados por franco-atiradores escondidos nas colinas que circundam a cidade (e que acabaram por facilitar seu cerco), em cenas chocantes que chegamos até a ver na TV. As tropas sérvias achavam que tomariam a cidade em apenas alguns dias, que os Bosniaks fugiriam ou seriam exterminados. Acabaram encontrando uma resistência que se formou quase do nada logístico, `apenas´ da determinação de um povo tolerante em defender sua cidade.

Mesmo depois que tanques invadiram a cidade e aviões começaram a bombardeá-la, o Ocidente assistiu passivamente; cerca de 12000 mortos (85 % civis e cerca de 20 % de origem Sérvia) e 4 anos de cerco depois, o terror chegou ao fim. É por toda essa imperdoável passividade, em um continente que há pouco testemunhara o Holocausto judeu, que muitos Bosniaks acreditam que o Ocidente dera intencionalmente uma carta branca a Milosevic, para que ele fizesse o que a Europa Cristã tanto sonha: de se ver ´limpa` de seus enclaves Muçulmanos em Bósnia e Kosovo (e Albânia). Milosevic só foi interrompido depois dos massacres no mercado de Sarajevo e em Sbrenica, em 1995, deixarem a opinião mundial chocada. Mesmo assim, 4 anos depois, ele viria a tentar o mesmo em Kosovo; dessa vez, a OTAN prontamente interviu bombardeando a Sérvia, Milosevic recuou, e os muçulmanos de Kosovo passaram por sofrimento menor. Se a mesma prontidão tivesse ocorrido com a Bosnia... . Clinton chegou a reconhecer que esta inanição no conflito Bósnio foi o pior erro de sua administração; não sei se Mitterrand também se arrependeu em ter autorizado apenas o envio de ajuda humanitária para que os Bósnios ao menos morressem de barriga cheia.

Bem, depois de 5 longos posts detalhando a história de Bósnia e Sarajevo, espero ter contribuído para quem quer que esteja passando os olhos por este blog. Eu também aprendi muito mais do que sabia nos anos 90. No próximo post, voltemos ao turismo.

Bósnia-Herzegovina: a singularidade da Europa, parte IV  

Posted by carlos in

(...continuação)

Porém, para muitos Bosniaks, o acordo de Dayton é uma bomba-relógio. Por ele, a independência Bósnia ficou garantida e reconhecida, mas o país foi dividido em duas unidades autônomas: Federação Croata-Muçulmana (51 % do território) e República Sérvia Sprska (49 %, a leste). Para muitos, é só uma questao de tempo até que os bósnio-sérvios de Sprska queiram se separar e, agora já em um território de ampla maioria Sérvia graças a recente limpeza étnica, serem anexados pela vizinha Sérvia. Ao que parece, as escolas em Sprska ensinam às crianças que elas são Sérvias em vez de Bósnias; num breve futuro, fica fácil atiçar o nacionalismo destas novas gerações em reclamar como ´seu` este território. Quando eu estava em Sarajevo, inclusive, houve muito protesto pelo fato de em uma visita de Estado o presidente Sérvio se dirigir ao líder de Sprska em vez de ao líder Bósnio.

A multiétnica Bósnia passou a ter um governo tripartite em que os cargos de presidente, chefe do parlamento, e primeiro ministro são revezados entre sérvios, croatas e bosniaks; o número de cadeiras no parlamento e em qualquer outra instituição oficial é sempre dividido em três partes iguais. A composição e a distribuição geográfica das três etnias foi drasticamente alterada depois da guerra; embora um censo oficial deva ocorrer apenas em 2011, estima-se que a população total do país tenha decrescido em cerca de 10 %, para atuais 3.9 milhões, enquanto a capital Sarajevo tenha perdido um terço de seus habitantes, com uma parcela dos remanescentes Bósnio-Sérvios tendo se deslocado para o lado leste da cidade, em solo da atual Sprska.

Com toda sua história moldada à ferro e fogo na fronteira de civilações (entre Roma Oriental e Ocidental, Bizâncio e Veneza, Otomanos e Áustro-Húngaros, além de Comunistas e Nazistas) os Bósnios (Bosniaks ou não), acostumados e orgulhosos de sua multietnicidade, não compreendem a necessidade que parcela dos descendentes de seus vizinhos sente em ser parte de um país ´puro`. Pois foi justamente por querer vivenciar o dia-a-dia destes Bósnios não-puristas que quis passar uma semana inteira em Sarajevo, cidade que passou pelo cerco mais brutal da história da guerra moderna. Fiquei neste albergue aqui, da família do literalmente grande Skender, jovem cujos pais também participaram na resistência da cidade. Fica aqui a propaganda da completa HP que ele mesmo criou, divulgando a cidade e o país que tanto ama; para maiores detalhes do cerco, leia seu texto aqui.

Com Skender, além de esclarecer muita coisa, fiz uma tour pelo chamado Túnel da Esperança, durante boa parte do cerco o único ponto de acesso à cidade citiada, que hoje abriga um pequeno museu-memorial; eu lembrava ter visto na TV uma senhora sob seu véu que corajosamente fornecia água a todos (civis e militares) que saíam do túnel, pois o mesmo começava em sua casa. Super interessado na resistência de seu povo, queria saber mais detalhes de como uma cidade sitiada por tanto tempo, sob tanto terror, totalmente desarmada e quase sem exército, conseguiu construir o que para mim é a história de resistência mais bonita de nossos tempos.

(continua...)

Bósnia-Herzegovina: a singularidade da Europa, parte III  

Posted by carlos in

(...continuação)

Foi sob Tito, com a constituição da República Socialista Iugoslava em 1946, que Bósnia e Croácia foram novamente separadas, e o status de República concedido a cada uma das seis nações Iugoslavas. De fato, foi graças a Tito que os Bosniaks não se tornaram apenas assimilados entre os vizinhos (ou exterminados por eles), e a Federação Iugoslava conseguiu desenvolver seu caráter multicultural por meio século, mantendo e reconhecendo igualmente cultura, religião, linguagem, e alfabeto de suas seis nações. A autonomia Iugoslava era tanta que Tito recusou-se a continuar recebendo apoio da Rússia, tornando-se um dos fundadores do Movimento dos Não-Alinhados, comunidade de países que decidiram não se alinhar a nenhum dos lados da Guerra Fria que emergiu depois da segunda grande guerra.

Com Tito, os sentimentos nacionalistas internos ficaram apaziguados, e a Iugoslávia se consolidou como importante nação européia, com Sarajevo chegando a sediar as Olimpíadas de Inverno em 1984; seu reconhecimento internacional era tanto que chefes de 128 países atenderam seu funeral, em 1980. Com a morte de Tito, o nacionalismo voltou a ganhar força dentre as seis repúblicas, pegando carona no colapso do Comunismo em 1989-1990. Com a dissolução da Iugoslávia em 91, os Sérvios se acharam seus legítimos herdeiros (de fato, herdaram todo o poderio militar) e decidiram formar sua Grande Sérvia, anexando todos os territórios vizinhos com população Sérvia por quaisquer meios. Um líder ultra-nacionalista, Milosevic, cuja carreira política se fizera em Kosovo, conseguiu excitar e canalizar essa idéia dentre boa parte da população sérvia e bósnio-sérvia. É inclusive sabido que acadêmicos faziam a defesa dessa idéia aos militares, para justificá-la e eximi-los de qualquer sentimento de culpa por suas ações brutais.

A Eslovênia foi a primeira a proclamar independência, em 1991, sem encontrar muita resistência. Também em 91 a Croácia fez o mesmo; porém, por possuir razoável população Sérvia, é invadida; milhares de mortos e deslocados depois, parte das terras Croatas ficam sob domínio Sérvio até 1995. Em 1992 a Macedônia, junto com a Bósnia as mais pobres das ex-repúblicas, se desliga sem muita represália, assim como ocorre com Montenegro apenas em 2006, que sempre fora o fiel aliado Sérvio. Também em 92, a Bósnia-Herzegovina vota pela independência: bosniaks (44 % da população) e bósnio-croatas (17 %) votam a favor, bósnio-sérvios (31 %) boicotam. É o início do pior pesadelo europeu desde a segunda guerra: a guerra civil explode em solo Bósnio.

Com suporte da Sérvia e de seu poderio militar, os bósnio-sérvios liderados por Karadzic e Mladic proclamam a República Srpska, no leste Bósnio, praticam limpeza étnica, matam e expulsam Bosniaks, colocam homens em campos de concentração e mulheres e crianças em campos de detenção onde são sistematicamente estupradas, e chegam até a capital Sarajevo. Ainda em 92, depois de atacados pela Sérvia, os croatas de Tudman, pelo lado oeste, também invadem a Bósnia e reinvidicam parte do país. Os Bosniaks ficam completamente largados à própria sorte, totalmente sem defesa; foi só no começo de 95 que a Croácia muda de lado (provavelmente ao perceber que ela seria a próxima vítima da Grande Sérvia), recupera seu terreno perdido para a Sérvia em 92, e se junta em solo Bósnio aos Bosniaks contra os sérvios.

Depois de 4 anos de carnificina, culminando nos massacres de Sbrenica (9000 bosniaks exterminados no primeiro genocídio legalmente reconhecido desde o Holocausto) e do mercado Markale em Sarajevo, a Otan finamente se decidiu por medidas militares contra a Sérvia (até então ela e ONU forneceram apenas ajuda humanitária aos Bósnios e imporam sanções aos Sérvios), o que acabou forçando Milosevic a assinar o acordo de paz de Dayton no final de 95. Com ele, depois de quase 200 mil bosniaks mortos, a maioria civis, e de quase 2 milhões de deslocados dentre as 3 etnias pelos Balcans, os sonhos da Grande Sérvia foram enterrados e mais tarde Milosevic e demais açougueiros Sérvios iriam parar no circo do Tribunal Internacional, por genocídio e crimes contra a Humanidade.

(continua...)

Bósnia-Herzegovina: a singularidade da Europa, parte II  

Posted by carlos in

(...continuação)

Depois de 4 séculos sob os Otomanos, o domínio Austro-Húngaro na Bósnia iniciado em 1878 foi relativamente curto, apenas 30 anos; mas as conseqüências do que ocorreu nesse período ecoam pelo planeta até hoje, pois foi em Sarajevo que surgiu o estopim da primeira grande guerra, que deu origem à segunda, ao redesenhamento do mapa europeu e de suas colônias, às imigrações européias ao Novo Mundo, à guerra fria, ao estado de Israel, ao começo e ao final sangrento da Iugoslávia, ... .

Os Bosniaks, como são chamados os Bósnios muçulmanos, aceitaram sem muita objeção o domínio dos Habsburgos, que prometiam transformar o país em uma colônia-modelo, mantendo e incentivando seu caráter multiculturalista. No entanto, um crescente nacionalismo Sul-Eslávico tanto de Bósnio-Sérvios (ortodoxos) como de Bósnio-Croatas (católicos) livres enfim do domínio Otomano, encontrava eco nas comunidades vizinhas na Sérvia e na Croácia; a idéia destes era formar um Estado unificado dos Eslavos do Sul, liderados pela Sérvia. A anexação formal da Bósnia pelos Habsburgos, dada de fato em 1908 pelo imperador Franz Joseph e inicialmente não aceita pela Rússia, foi o fator decisivo que levou um jovem nacionalista Bósnio-Sérvio de 19 anos, Gavrilo Princip, a assassinar o herdeiro ao trono dos Habsburgos, Arquiduque Franz Ferdinand, e sua esposa Sofia, quando estes visitavam Sarajevo em 28/06/1914. Menos de dois meses mais tarde, os Austro-Húngaros declararam guerra aos Sérvios, fato que precipitou várias outras nações a entrarem no conflito, defendendo seus lados e reinvidicando suas próprias razões em atacarem outros países, até que toda Europa e, por extensão, suas colônias na África e na Ásia se envolvessem no que veio a se tornar a Primeira Grande Guerra: os poderes Centrais (impérios Alemão, Austro-Húngaro e Otomano, Bulgária, ...) contra os Aliados (impérios Britânico e Russo, França, Itália, Japão, Sérvia, EUA, ...).

Com a derrota dos poderes Centrais e o fim dos Otomanos e dos Habsburgos (o império Russo também se extingüiu no transcorrer da guerra, em 1917, pela Revolução Russa), a Bósnia foi anexada à Sérvia no recém-formado Reino Servo-Croata-Esloveno em 1918, onde não possuía status de nação; Montenegro fora anexado à Sérvia, Kosovo e Macedônia já eram Sérvios à época. O Reino Iugoslavo, formado em 1929, mantinha as tensões territoriais entre Sérvios (ávidos em formar sua Grande Sérvia) e Croatas (mais propensos a uma federação unificada mas descentralizada) e negligenciava quaisquer traços de uma nação Bósnia assim como de uma maioria Muçulmana. Quando a situação já rumava a uma partilha da Bósnia entre Ortodoxos e Católicos, as querelas internas tiveram de ser postas de lado por causa da ameaça Nazista; Hitler veio a invadir a Iugoslávia em abril de 1941.

Sob a Alemanha Nazista e o Eixo, nova partilha da Iugoslávia é feita: a Croácia foi entregue a Itália Fascista, tornando-se um estado independente (partido Ustase) mas fantoche do Eixo, ganhando o controle da Bósnia; em troca, os croatas cederam sua costa Dálmata à Itália. No curso da segunda grande guerra, com o Rei Iugoslavo (Peter II, um Sérvio) no exílio, emergem os Chetniks (guerrilheiros fiéis ao rei), e cresce a figura de Tito (um Croata-Esloveno) e de seu partido Comunista como principal opositor aos Nazistas. Tito se torna merecedor do suporte Aliado e, com a expulsão dos Nazistas em 1945, consegue também dissolver a Monarquia e cria a República Iugoslava, tornando-se seu Primeiro-Ministro. Durante a segunda guerra, os Chetniks e a Ustase, que perseguiam membros uns dos outros além de Bosniaks e judeus, chegaram a unir forças contra os comunistas, os quais passaram a receber suporte do exército Vermelho Soviético.

(continua...)

Bósnia-Herzegovina: a singularidade da Europa, parte I  

Posted by carlos in

Enquanto as amigas feitas em Dubrovnic rumaram a Itália, num dia chuvoso peguei o ônibus para a Bósnia; no caminho, passava por Mostar, mas havia decidido que rumaria direto à capital Sarajevo, ficando por lá o tempo necessário para tentar absorver o possível dessa cidade tão singular, um dos pontos mais esperados da minha viagem. Adquiri por ela um enorme interesse, desde os quatro anos do cerco genocida Sérvio ao qual heroicamente sobreviveram nos anos 90. Por isso, antes de adentrar na parte turística do complexo caldeirão étnico-político-religioso Bósnio e de sua capital, vou gastar alguns posts discorrendo sobre um pouco da história dessa nação, palco antigo e recente de verdadeiras encruzilhadas da civilização, até para se tentar entender melhor as causas de todo o sofrimento a que esse país foi exposto.

Desde seus primórdios, o domínio das atuais fronteiras Bósnias passou de mãos em mãos, de acordo com o império dominante no momento (Romanos, Húngaros, Otomanos, Venezianos, Austro-Húngaros), e também graças às várias invasões que as colonizaram desde eras pré-cristãs: Roma conquistou essa região no ano 9 DC, vencendo a guerra contra os Ilírios (Ilíria era o nome da região que se estendia pelos Balcans ocidentais, dividida pelos romanos no ano 10 DC em Dalmácia e Panônia, com a capital em Salona, nos arredores da atual Split). Com a divisão do império Romano, nos anos 337-395, a atual Bósnia ficava na fronteira entre Roma ocidental e Roma oriental (Bizâncio), tornando-se parte integral do império Bizantino no século VI.

Com a chegada dos Eslavos ao sul europeu nos séculos VI-VII, toda antiga Ilíria foi cristianizada, ou melhor, ortodoxizada; apenas sua parte mais ao litoral, atual Croácia, permaneceu um maior tempo sob Roma Ocidental e mais tarde Veneza, assim se tornando majoritariamente católica. Pelo século X, os principados da Croácia e da Sérvia dividiam o controle da atual Bósnia. Com as constantes trocas de poder entre Hunos e Bizantinos, essa região acabou adquirindo independência no século XII, sendo Ban Boric o primeiro monarca Bósnio. Já em 1463 o império Otomano, em franca expansão, conquistou o reino Bósnio (assim como todo Balcans), o qual ficou anexado até 1878. Foi durante estes quatro séculos que emergiu e se tornou maioria uma população Muçulmana, embora de origens e idiomas Eslavos; e isso sem que minorias Croatas (Católicas) e Sérvias (Ortodoxas) deixassem de coexistir, além de judeus que por ali aportaram fugindo das perseguições na península Ibérica em fins do século XV. Inicialmente, os inimigos dos Otomanos eram os vizinhos Adriáticos (os Venezianos), até que os Austro-Húngaros tomassem esse lugar.

É curioso mencionar que a minúscula faixa de 15 km de terra que a atual Bósnia possui como única saída ao litoral foi vendida pela República de Dubrovnik em 1699 aos Otomanos (conhecida como República de Ragusa à época, e então um território independente da Dalmácia (e da atual Croácia) mas sob tutela do império Otomano que possuía suas fronteiras por essa região) para que estes tivessem seu próprio acesso ao Adriático e pudessem assim atacar Veneza, e também para que Ragusa nao fosse atacada por terra pela Dalmácia, que era entao controlada por Veneza. Mas foi esse mesmo tratado de 1699 (Karlowitz, assinado depois da derrota nas guerras Austro-Otomanas entre 1683-1697) que marcou o início do declínio Otomano na Europa, quando seu império cedeu Hungria e Transilvânia aos Habsburgos, a costa Dálmata à Veneza, além de outros territórios perdidos para Polônia e Rússia; a Bósnia só foi entregue aos Habsburgos em 1878, depois de vários conflitos internos que forçaram os Otomanos a cedê-la.

(continua...)