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Cracóvia, coração cultural da Polônia  

Posted by carlos in

Depois da longa jornada de trem saindo Brasov cheguei em Cracóvia, a primeira parada na Polônia, às vésperas do Ano Novo. Não havia nada de especial na data ou no local, apenas aconteceu de eu estar ali naquela parte do ano. Fiquei neste albergue aqui. Frio e neve continuavam. No meio mochileiro essa cidade é cultuadíssima por sua beleza e agitada vida noturna; não é por menos. Cracóvia é um dos principais centros acadêmicos, culturais, artísticos e econômicos do país, e seu centro histórico é um patrimônio da Unesco. Em 1978 o então arcebispo da cidade, Karol Wojtyla, tornou-se o primeiro Papa Eslavo do mundo católico, João Paulo II (vulgo Jãozinho). Foi capital nacional de 1038 a 1596 e, como mencionado no post anterior, teve essencial papel na manutenção da cultura Polonesa depois da partilha do país em 1795, quando a cidade entrou no domínio Austríaco. Cortada pelo rio Vistula e circundada pelos Cárpatos, hoje é a segunda maior cidade do país com cerca de 750 mil habitantes.

Quando os Nazistas ocuparam a Polônia na segunda guerra, seu comando geral era sediado em Cracóvia. Os Judeus da cidade foram todos confinados no chamado Gueto de Cracóvia, que era todo murado, de onde eram enviados aos campos de concentração como Auschwitz. Ao lado do Gueto ficava a fábrica do Alemão Schindler, que ali a instalou pela farta mão de obra disponível; ele passou a selecionar Judeus para sua fábrica, os quais se livravam então da morte certa nos campos, episódio tornado famoso no filme de Spielberg.

As jóias de Cracóvia são muitas, mas certamente o centro histórico é a maior delas; o jeito é você se perder por ele apreciando os zilhares de sítios em estilos barroco, gótico e renascentista, forrados de vitrais, esculturas, monumentos e quadros de valor incalculável. São lindos teatros, palácios, igrejas, sinagogas, museus, e campus das universidades mais antigas da Europa. Ele basicamente se estende da colina Wawel à praça do mercado central, conectados pela antiga Estrada Real. Esse era o percurso seguido pelos Reis no processo de coroação Polonesa quando Cracóvia era capital; ele começava na igreja de São Floriano, passava pelo Portão de Floriano (entrada da cidade e hoje é pouco do que restou dos muros da cidade que o conectava às torres e ao barbican), pelo barbican, até chegar à praça do mercado central; de lá, a Estrada continuava até chegar ao castelo em Wawel. O sistema dos muros da cidade foi posto àbaixo quando do domínio dos Austríacos que pretendiam modernizar a cidade.

Na praça do mercado central, que data do século XIII, tida como a maior da Europa medieval, destacam-se o lindo Suniennice (refeito em 1555), enorme mercado-hall em que o comércio era feito na época de ouro Polonesa, a igreja de São Adalberto e a igreja de Santo André (ambas do século XI, anteriores à praça), a torre central, e a Basílica de Santa Maria, detentora do maior altar gótico do mundo.

Já na colina Wawel destacam-se o castelo Wawel, morada Real desde os reis da dinastia Piast, a capela de Sigismuno e a vizinha catedral gótica de Wawel, em cuja cripta hospedam-se os últimos reis da dinastia Jagiellon além de heróis nacionais, e vários outros monumentos como rotundas, torres, e terraços, dos quais se vislumbra o rio Vistula e parte da cidade.

Para além do centro histórico, dois bairros essenciais são Nowa Huta, o bairro construído nos tempos Comunistas como um novo centro industrial, que hoje abriga metade da cidade, e Kazimierz, o bairro Judeu anterior à guerra, hoje quase abandonado, que tem passado por projetos de reabilitação (o Gueto foi montado em outra parte da cidade pelos Nazistas). Em termos de vida noturna, talvez por ser época de férias universitárias, os zilhões de bares estavam até que cheios mas nada além do que se esperaria para uma cidade como essa.

AVISO: Cracóvia é a primeira cidade cujas fotos se perderam no assalto que sofri em Jerusalém (detalhes no post daquela cidade, posterior); perdi um mês de fotos sem backup. Para não ficar só na descrição, seguem abaixo alguns links da net, fotos de terceiros.

http://www.krakowspace.com/index.htm
http://www.krakow-info.com/freephot.htm
http://pictures.polandforall.com/poland-pictures-cracow.html
http://photos.igougo.com/pictures-l563-Krakow_photos.html
http://www.tripadvisor.co.uk/LocationPhotos-g274772-Krakow_Southern_Poland.html



Ainda hospedado em Cracóvia, peguei uma tour para visitar Auschwitz. Um dia de extremos: primeiro se chocar com a barbárie, e voltar no fim do dia para curtir a virada de ano na praça do mercado central.

Polônia, uma história de muito sofrimento  

Posted by carlos in

Como de costume ao entrar em novo país, um pouco de história antes do turismo.

Em seus mil anos a Polônia passou por fazes bem distintas; depois de suas dinastias iniciais, essa nação Eslava foi de o maior país Europeu no século XV à sua dissolução no século XVIII, teve seu mapa novamente redesenhado após a segunda guerra mundial, e desde o fim do Comunismo vem se reintegrando ao continente.

A tribo dos Polans foi a principal das tribos Eslavas que deu origem aos Poloneses, no centro da Europa. O ano de nascimento oficial de uma entidade Polonesa é 966, quando o rei Mieskko I, da dinastia Piast (966-1385), conseguiu impor certa união às tribos locais e as converteu ao Cristianismo católico, enquanto os Eslavos ao sul se tornavam Ortodoxos pela influência do Império Bizantino; nessa época os Judeus também começaram a se estabelecer. A dinastia Jagiellon (1385-1569) forjou em 1410 uma união com a vizinha Lituânia ao norte. Esse período viu certo florescimento da cultura Polonesa (nele surgiu Copérnico), que chegou inclusive a dominar reinos vizinhos como o Húngaro em 1490.

A época seguinte viu a consolidação da Liga Polônia-Lituânia (1569-1795), que em seu princípio presenciou a chamada época de ouro Polonesa. A Liga era controlada por um sistema de razoável liberalidade e tolerância religiosa em comparação aos seus vizinhos ocidentais; além disso, ela estava geograficamente mais além dos domínios Otomanos pela Europa. A Liga chegou ao ápice de sua expansão territorial entre 1619-1629, quando as atuais Estônia, Letônia, Bielo-Russia, Ucrânia e partes da Rússia foram conquistadas, o que a tornou à epoca o maior país de todo o continente.

Já em fins do século XVII a Liga começava a se enfraquecer; a revolta dos Cossacos na Ucrânia, descontentes com seu status na Liga e com o domínio Católico em suas terras Ortodoxas, os fez se aliar à Rússia que então iniciou a guerra Russo-Polonesa (1654-1677), terminando por tomar Ucrânia e Bielo-Russia da Liga. A Suécia aproveitou e tambéu invadiu a Liga ao norte (Guerras Deluge, 1655-1660) para retomar a parte Protestante do Báltico. Como resultado desse período, a Liga se encolheu, sua população caiu de 11 para 7 milhões, a tolerância religiosa entre católicos, ortodoxos, protestantes e os já numerosos judeus foi abalada, e a Rússia emergiu como uma nova potência no cenário Europeu.

O que sobrou da Liga ainda existiu até fins do século XVIII. Muito enfraquecida, ela foi simplesmente dissolvida e partilhada pelos seus poderosos vizinhos (Rússia, Prússia e Áustria) entre 1772 a 1795, ano em que a nação Polonesa simplesmente deixou de existir. Cidades sob controle Russo (que detinha Varsóvia e a maior fatia do território) e Prusso sofreram maiores privações, com confisco de propriedades de Poloneses, Russificação e Germanização de escolas e cultura; já os Austríacos permitiam em seus domínios uma maior participação Polonesa na vida política e a manutenção de sua cultura, de onde a cidade de Cracóvia surgiu como o grande centro difusor Polonês dessa época apátrida de 123 anos.

De 1795 a 1918 a diáspora Polonesa pela Europa tentava apoiar movimentos de independência em suas terras, influenciada pela onda nacionalista que varria o continente. Mas foi só com a derrota dos Austro-Húngaros e Alemães na primeira guerra mundial e com a revolução Russa de 1917 que a nação Polonesa pode voltar a existir; logo de cara ela teve que enfrentar uma guerra (1917-1919) contra os Soviéticos que não queriam perder seu antigo território Polonês.

No entanto a duração dessa independência (1918-1939) foi curta. Com a eclosão da segunda guerra a Alemanha Nazista invadiu o oeste Polonês em 1939, enquanto no mesmo ano os Soviéticos, pelo lado Aliado, invadiram o leste. Essa nova partilha durou até 1945, sendo a Polônia o país que perdeu maior porcentagem de população durante a segunda guerra, pois ela forneceu o quarto maior contingente de soldados aos Aliados depois de Soviéticos, Britânicos e Americanos (além dos milhões de Judeus exterminados por Hitler); foram 6 milhões de mortos, grande parte Judeus.

O fim da guerra viu nova redivisão de fronteiras e deslocamentos de populações, e o ressurgimento de uma nação independente mas totalmente dentro da esfera Soviética, situação que perdurou de 1945 a 1989 com o fim do Comunismo. Um dos fatos mais importantes desse período foi o surgimento do sindicato Solidariedade em Gdansk (Danzig para os Alemães), na costa Báltica, nos anos 80; Lech Walesa, então um eletricista em Gdansk, liderou o primeiro sindicato independente do mundo Soviético, que depois de sair da ilegalidade conseguiu a porção livre das cadeiras legislativas na eleição em 1989, constituindo assim o primeiro governo não totalmente Comunista do leste Europeu. Esse foi um movimento catalizador do fim do Comunismo naquele mesmo ano, e Walesa se tornou presidente nas eleições de 1990 quando a Polônia finalmente voltou a ser uma nação livre no sentido pleno da palavra.

A abertura econômica trouxe seus típicos problemas, alto desemprego, pobreza, corrupção, emigração em busca de melhores condições. Mas a Polônia se tornou na virada do milênio o primeiro país do antigo bloco Comunista a atingir indicadores econômicos iguais aos de antes. Em sua aproximação com o Ocidente, tornou-se membro da Uniao Européia em 2004 e desafortunadamente permitiu instalações militares Americanas em seu solo (para muito desconforto Russo).

Os atuais 38 milhões de habitantes, 96% Poloneses e 88% católicos, comunicam-se em sua própria língua no alfabeto Latino. Pelas diásporas de sua história, estima-se em 20 milhões o número de Poloneses no exterior; sua segunda maior comunidade fica em Curitiba, a primeira sendo Chicago. A maior parte dos Judeus que sobreviveram ao holocausto constituíram a maior fonte dos moradores no recém-criado estado de Israel.

De volta ao turismo no próximo post.