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Aleppo, parada obrigatória da antiga Rota da Seda  

Posted by carlos in

Não há do que reclamar dos ônibus na Turquia; em geral, há um 'serviço de bordo' e um cara passa oferecendo água, sachês de leite ou chá, um biscoito. Pois saindo da surreal Goreme tive que ir até Kayseri, onde pegaria o ônibus para a fronteira Síria tentar a sorte com os generais de plantão, embora tivesse sido avisado para não fazer isso. Mas por terra não há como cruzar o Oriente Médio sem passar pela Síria, a não ser que passasse pelo Iraque...

Lá fui eu. Na fronteira, o motorista do ônibus aguarda por um certo tempo de praxe antes de seguir viagem. Eu sabia que o meu visto, se é que o conseguiria, iria demorar mais do que o dos demais 'normais' passageiros; por isso, até tirei a mochila do bagageiro, e nem iria tentar argumentar para ser ressarcido pelo restante do bilhete caso eu ficasse para trás, como fiquei. Ser Brasileiro por essas fronteiras é grande vantagem mesmo; depois de um bom tempo de espera, numa sala com os típicos rapazes de bigode vestindo seu verde-oliva, me liberaram para pagar e pegar o visto (na Síria, paga-se também uma taxa para sair do país). Voltei prá pista e me meti no próximo ônibus, cujo motorista gente boa nem me cobrou nada.

Entrei! Segui meu rumo para a primeira parada na Síria, a histórica Aleppo, segunda maior cidade do país e uma das mais antigas continuamente habitadas do planeta, em que fiquei neste hotel simples e barato. Em seu auge no século XIX ela chegou a ser a terceira maior cidade do Império Otomano, depois de Constantinopla e Cairo, em grande parte por estar na Rota da Seda que diga-se foi uma das maiores responsáveis pelo desenvolvimento de inúmeras cidades e reinos pelo Velho Mundo, e de onde seus inúmeros bazares e caravanserais (locais de hospedagem dos mercadores) proliferaram; Aleppo comecou seu declínio em 1869 com a abertura do canal de Suez e dessa nova rota de comércio. O isolamento da Síria nas últimas décadas acentuou esse declínio, mas recentemente a cidade tem passado por um reavivamento que alías engloba a preservação e restauração de ceu centro medieval histórico. Aleppo tem o maior souq (bazar coberto) do mundo; e eu achava que o de Istambul já era infinito! Andar por esses bazares não dá para ser descrito. Esses caras inventaram o comércio.

Antes dos Otomanos, a cidade passou por diversas mãos; Amoritas, Hititas, Assírios, Persas, foi conquistada por Alexandre O Grande em 333 AC, por Roma em 64 AC posteriormente fazendo parte do território Bizantino, até a conquista pelos Árabes em 637. O domínio Árabe sofreu invasões dos Bizantinos, Turcos Seljuk e Mongóis, mas ele só veio a cair em 1536 quando os Otomanos a conquistaram; com o fim do império Otomano na primeia guerra mundial, Aleppo e toda Síria entrou junto com o atual Líbano no mandato Francês em 1920, o qual durou até a independência do país em 1946 após a segunda guerra mundial. Desde 1970 os al-Assad do partido Baath, pai e agora o filho, têm presidido esse país que de fato conserva um aspecto bem fechado.

Minha primeira parada foi a Citadela de Aleppo, um complexo no topo da colina que domina o centro antigo ao seu redor, com a cidade se estendendo dali. Sem dúvida um dos maiores castelos/fortes do mundo, a maior parte de sua estrutura data do século XII, mas ruínas dos impérios anteriores ainda persistem em seu interior. A panorâmica a partir da Citadela é fenomenal, 360 graus; o ingresso para nativos é bem mais barato do que para estrangeiros, e por isso há famílias inteiras por lá oriundas do resto do país. Parecia ser bem raro haver um forasteiro no local, de máquina em punho, tantas foram as pessoas que vinham puxar 'conversa' (como é ruim não se falar o mesmo idioma!), inclusive um grupo de jovens do exército que pediram até para tirar foto. Reflexos de um povo muito amigável vivendo num país muito fechado? Essa ao menos foi a impressão que ficou por diversos locais que visitei no país.

Para além da Citadela, outras visitas na parte antiga são devidas: o souq que conduz à colina, a Mesquita Ummayad, a maior da cidade iniciada no ano 715 no sítio da antiga Ágora Grega e reconstruída no século XIII após a invasão Mongol, o complexo da Mesquita Khusruwiyah, terminada em 1547 pelo arquiteto Sinan, o mesmo que planejou as principais mesquitas Otomanas em Constantinopla. Na parte mais nova da cidade destacam-se: a praça central e o bairro Saadallah Al-Jabiri, com a torre-referência Bab Al Faraj; nas suas imediações ficam a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional, e o hotel em que fiquei. Fui também conhecer o antigo bairro cristão: a catedral Armênia, a igreja de São Elias, e suas típicas ruelas.

AVISO: Aleppo é a oitava cidade cujas fotos se perderam no assalto que sofri em Jerusalém (detalhes no post daquela cidade, posterior); perdi um mês de fotos sem backup. Para não
ficar só na descrição, seguem abaixo alguns links da net, fotos de terceiros.

http://www.trekearth.com/search.php?phrase=aleppo&type=&x=28&y=9
http://fiveprime.org/hivemind/Tags/aleppo
http://www.galenfrysinger.com/aleppo_citadel.htm
http://www.galenfrysinger.com/aleppo.htm
http://www.tripadvisor.co.uk/LocationPhotos-g295416-Aleppo.html



Uma cena triste e emblemática quando caminhava pelo souq; lá estava uma criança vendendo algo no meio do caminho, provavelmente ela não era permitida vender ali dentre as lojas do souq, quando surgem uns quatro jovens fardados e começam a agredí-la e arrastá-la embora; ela foi arrastada aos berros e os poucos que pararam ficaram apenas a assistir a agressão, não sei se por receio ou por normalidade.

Depois de Aleppo, outro ônibus-lotação e a próxima parada na capital Damasco.

Começando o giro pelo conturbado Oriente Médio  

Posted by carlos in

Um importante post introdutório da etapa Oriente Médio, última da viagem.

Usei muito desse meu enorme giro até então pela Europa para também aprender além do que nos ensinam os livros. E valeu muito! Consegui tapar muitos buracos da história ensinada, ao menos minha cabeça ficou mais esclarecida e acho que consegui me dar uma visão mais profunda de como eu, e o 'lado de cá' do mundo, vim a nascer "isso" que nasci. Depois da Europa Ocidental, passei a escrever longos posts com muita história, além de expressar certas opiniões, principalmente na Bósnia (e Balcans), Grécia e Turquia, palcos antigos e recentes do encontro Ocidente-Oriente que tem delineado quase tudo o que aconteceu até há pouco no lado de cá do planeta; tomara que tenha sido útil para mais alguém!

Agora, nesse breve mergulho que eu iniciava na borda do 'lado de lá' do mundo, o Oriente Médio, tinha a intenção de colher as primeiras impressões dessa cultura que, gostem ou não, é infinitamente distinta para depois eu sanar minha maior ignorância do mundo Árabe. Ainda me devo essa tarefa, aos poucos em andamento, e um pouco facilitada agora depois das impressões in-loco. Por causa dessa dívida comigo mesmo, nos posts a seguir pelos países que visitei dessa hiper-conturbada área do mundo que viu nascer as três infelizes religiões monoteístas que o moldaram, vou tentar me reter mais ao cunho turístico-histórico de dado lugar.

Em termos turísticos, viajar por terra dentre esses pequenos países (Síria, Jordânia, Líbano, Israel, Palestina) saindo da parte Asiática da Turquia até chegar no Egito Africano, é infinitamente mais complicado do que viajar pela Europa. Como Brasileiros precisam de visto em cada um deles e eu iria tentar conseguí-los apenas nas fronteiras (não ia mais perder tempo em Consulados como perdi em Ankara tentando o visto Sírio), cada curta viagem de uma ou duas centenas de quilômetros acabava por tomar o dia todo, sem contar que em geral não há ônibus com horários pré-definidos, apenas lotações que partem quando seus assentos estão tomados. Outra enorme dificuldade é que não só o inglês não é comum no dia a dia desses países (excetuando-se seus pontos mais turísticos), mas a maior parte de placas, endereços, letreiros (inclusive de ônibus) só existe no alfabeto Árabe.

Resumindo, por vezes cada simples locomoção de um ponto a outro virava uma baita dor de cabeça para um forasteiro avulso como eu, tentando se virar sem fazer parte de grupos fechados ou excursões e querendo conhecer a vida normal dos nativos fora das bolhas turísticas. Como esses países não são, digamos, parte do circuito mochileiro, também é raro de se achar albergues e o jeito é apelar para os hotéis mais simples possíveis; em termos de diárias, o gasto dava quase no mesmo. Apenas dentro de Israel esses problemas ficavam um pouco mais fáceis, país o qual me prometi visitar sem levar minhas pré-concepções mas que apenas foram redobradas ao ver in-loco apenas um pouco do como esse Estado Terrorista lida com terras e almas da Palestina que ele ocupa ilegalmente (sem mencionar a recente carnifica que seu exército fez no Líbano). Mas acabei de escrever acima que não iria me reter a essa parte...

Pois bem, tecidos os comentários inicias, voltemos à estrada!