Eis o mapa final da aventura. Lisboa a Cairo por 42 países em 7 meses de MUITA história, beleza, aprendizado e algumas infelicidades. E alguns novos amigos feitos pelos caminhos cruzados. Praticamente toda a Europa percorrida de trem (barco e ônibus algumas vezes), além de ter 'beliscado' Ásia e África.
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Pois é, teria que acabar um dia. Não vou me por aqui a querer resumir ou ficar elegendo melhores e piores; tudo teve seu devido valor e importância. É muita coisa; paisagens tão diversas, culturas tão distintas. Aprendi muito. Além do turismo em si, eu queria nesse meu giro me colocar em contato com costumes e lugares que não estamos acostumados do lado de cá do Atlântico.
Acho que a própria maneira de eu escrever os posts é um reflexo disso. Na primeira metade, mais pela Europa Ocidental, Reino Unido e Escandinávia, os posts eram mais curtos, iam direto para as fotos e alguns detalhes de minha passagem pelo lugar; claro que há locais e culturas tão fascinantes quanto em qualquer parte do mundo, mas é algo que estamos um pouco mais acostumados.
Já na segunda metade, mais pela Europa Oriental, Turquia e principalmente os Balcans, os posts ficaram mais extensos, carregados de História e de algumas opiniões sobre temas mais espinhosos. Nessa parte do mundo o 'estranhamento' é enorme e por isso mais atraente; religião, costumes, alfabeto, idioma e uma mistura inacreditável desses elementos; costumes Islâmico, Cristão, Ortodoxo; alfabetos Latino, Cirílico, Árabe; gente geograficamente tão próxima e culturamente tão distinta. Clichês à parte, é um caldeirão de culturas, o choque Oriente-Ocidente graças ao avanço do Império Otomano pela Europa entre a conquista de Constantinopla (e o fim do Império Bizantino) e o fim da primeira guerra mundial (quando o Império Austro-Húngaro também ruiu).
Aí houve uma mudança de trajetos por eu frustadamente não ter ido à Rússia, embora tenha tentado o visto duas azaradas vezes. Em vez de terminar meu giro conhecendo o Norte da África de Egito a Marrocos, fui me perder pelo ultra-complicado Oriente Médio; viajar por terra entre Turquia e Egito é mais difícil e custoso do que pela Europa. Mas em termos de 'estranhamento' não poderia ser mais rico; a grande e irônica infelicidade é que fui assaltado em Jerusalém e perdi a câmera com 1 mês de fotos sem backup, que cobriam da Polônia a Israel-Palestina (menos Petra e Baalbek). Nesses posts eu incluí links com fotos de terceiros para não ficar só nas palavras.
Além da Rússia também não consegui conhecer seus vizinhos Ucrânia, Moldávia e Bielo-Rússia pelos mesmos problemas de visto demorado; eu tentava os vistos pela estrada. Por toda Europa Brasileiros precisam de visto de turismo apenas na Sérvia, mas este foi rápido. Acabei excedendo em uma semana o tempo permitido no Espaço Schengen, que usei bem descontinuamente, e não tive problemas ao sair; mas sei que foi sorte. E aos interessados, em cada cidade que passei eu pus um link no respectivo post para o albergue que fiquei.
Mas o que eu prefiro mesmo é o mapa abaixo, mais ainda depois dessa viagem. O planeta como deveria ser, sem as fronteiras e linhas que o macaco-homem inventou e que foram tanto alteradas por séculos de guerra, cortando e deslocando etnias que tantas vezes pertencem à nação do outro lado da fronteira. Na cabeça simples de quem não entende o porque de ser 'diferente' implica em não poder compartilhar o mesmo lugar e o mesmo dia a dia, essa viagem deixa a pessoa ainda mais esquizofrênica: tanta beleza em indescritível diversidade, e tanta dificuldade em misturar-se e aprender mutuamente com os vizinhos.
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Concluo dizendo que a estrada vicia! Fica aquela vontade de conhecer a Ásia e a África, mas acho que isso não vai acontecer. Na América do Norte eu vivi por uns 6 anos. Tinha quase certeza que a próxima viagem seria por nuestra América Latina, de México à Terra do Fogo; mas a grana e o tempo que me sobraram, e principalmente as distâncias enormes envolvidas, me fizeram decidir por plano menos ambicioso mas não menos esperado.
Saio agora a me perder pelo Continente Brasileiro, uns cinco meses entre Agosto/2010 a Janeiro/2011, passando por todos os 26 estados de nosso país, iniciando em Brasília. Claro que o estranhamento será infinitamente menor, nao há o que comparar até porque temos oficialmente apenas 500 anos de existência. Mas a idéia agora é mergulhar em nossa própria gente e natureza, norte a sul, leste a oeste, costumes e paisagens tão diversos mas unidos em uma mesma cultura. Deve rolar um blog dessa viagem também; se rolar eu ponho o link por este blog.
Portanto... nos vemos pela estrada! Vou cobrar daqueles que já ofereceram um teto e uma cama pelo país, e continuo aceitando 'ofertas' de hospedagem. :) Também aceito palpites de locais que não poderia perder em dado Estado.
Cairo, última parada de minha viagem, 42 países e 7 meses depois, podendo crer que pus os pés na África. O trem de Luxor me trouxe até a cidade; no primeiro dia fui reto a Giza, post anterior. Na volta, me restavam só uns dois ou três dias antes do vôo de retorno. Capital e maior cidade do Egito, da África e de todo mundo Árabe, Cairo tem quase 7 milhões de habitantes, atingindo 18 milhões em sua área metropolitana que, entre outras, inclui a própria Giza. Gigantesca megalópole com os típicos problemas de poluição e razoável caos pelas áreas mais centrais (aos olhos de um forasteiro), seriam necessários muitos dias para se conhecê-la devidamente; porém, com tudo de errado que aconteceu pelo Oriente Médio acabei perdendo mais tempo (e dinheiro) antes dessa parada final. Inevitavelmente gastaria um dia inteiro no Museu de Cairo e o restante pela cidade.
Felizmente há metrôs para você conhecer distritos mais distintos embora as linhas sejam reduzidas. Por exemplo, não vão à Velha Cairo, onde aliás os sítios históricos são bem espalhados e acabou nem dando tempo de conhecê-la toda. Além do Museu e da Velha Cairo, perambular pelas margens do Nilo e pegar uma balsa é obrigatório, sendo bem fácil fazê-lo em downtown entre as pontes que conduzem à ilha Gezira, fincada no meio do Nilo à caminho de Zamalek, um distrito mais rico da cidade; aliás fiquei neste hotel barato em downtown. Em Zamalek a Torre de Cairo, quarta maior do mundo com 187 metros, fornece a panorâmica perfeita da Cairo atual; é preciso conhecer aquela área de dia e de noite, aquele fluxo de pessoas e barcos iluminados e animados a cruzar o Nilo (lembrou muito Istambul-Constantinopla entre Europa e Ásia). Some-se a isso deixar-se perder pelo 'caos' de downtown, bares, cafés e fast-food Árabe dentre os locais, e dar uma passada pelo distrito de Heliópolis, sede da presidência, e tem-se ao menos um gosto do que é essa cidade.
A atual Cairo se expandiu da Velha Cairo, que por sua vez ficava nas proximidades de Memphis, capital do antigo Egito Inferior e do Velho Reino. A Velha Cairo surgiu por volta do século IV quando o primeiro povoado Romano se instalou no que hoje são as ruínas do Forte Babilônia, na área chamada de Cairo Cóptica, que era o centro Cristão da cidade. Àquela época Memphis já estava bem enfraquecida pois Alexandria era o centro do país (veja os posts introdutórios do Egito); após a conquista Árabe pelo Califado Rashidun e o estabelecimento de Fostat, o centro Islâmico da Velha Cairo ao norte do Cristão, como capital do país em 641, Memphis entrou gradualmente em esquecimento enquanto Fostat tomava o lugar de Alexandria.
Mas foi em 969, quando o Califado Fatimida conquistou o Egito que uma nova capital fortificada foi construída, logo ao norte de Fostat, e foi chamada Cairo; Fostat acabou em ruínas com um incêndio em 1168. Com o crescimento de Cairo, a cidade anexou as ruínas de Fostat e da Cairo Cóptica. Veio a conquista de Saladin em 1169, derrotando os Cruzados, instalando a dinastia Ayyubid no país, e construindo a Citadela de Cairo que foi a sede do poder Egípcio até o século XIX. A importância da cidade diminuiu aos poucos entre o domínio dos Mamelucos (1250-1517), período em que a Pesta Negra ceifou cerca de 200 mil vidas e uma nova rota marítima foi inaugurada pelo Cabo da Boa Esperança após Vasco da Gama, e o domínio dos Otomanos (1517-1802), cuja capital absoluta era Constantinopla. Ainda assim, pelo século XIX Cairo, a segunda maior cidade Otomana, continuou relativo crescimento.
Veio então em 1802 a dinastia de Ali Pasha, que modernizou a cidade trazendo maiores investimentos e influências Européias, também acarretando um grande endividamento ao país principalmente pela construção do Canal de Suez. O Reino Unido invadiu o Egito em 1882 lá ficando até sua independência em 1922, embora as tropas Britânicas só tenham sido expulsas após a Revolução Egípcia de 1952. Cairo não parou de se modernizar e se expandir em novos distritos; boa parte de downtown reflete esse período de maior influência Européia na arquitetura, embora suas ruas hoje sejam dominadas pelo cotidiano Árabe.
Cairo necessitaria de muitos albums, mas o tempo curto acabou me deixando apenas com esse acima onde consta: o Museu do Cairo (fotos não são permitidas no interior), onde dei sorte pois a exposição das relíquias da tumba de Tutancamon, descoberta quase intacta no Vale dos Reis em 1922, havia acabado de retornar ao país (elas são magníficas, e o Museu todo é soberbo); a Velha Cairo, com a Cairo Cóptica (o centro Cristão antes da conquista Árabe) e o Museu Cóptico, a Igreja Pendurada, e outras igrejas como a Grega São Jorge, com as ruínas da Fortaleza Babilônia ao redor; o antigo centro Islâmico de Fostat, ainda na Velha Cairo, com a mesquita Amr ibn al-As, a primeira do continente Africano (642), e outras mesquitas como a al-Azhar (972) que deu origem à universidade homônima, insituição central da teologia Sunita.
Em Cairo há também a sinagoga de Ben Ezra (1115), feita supostamente no local em que o bebê Moisés foi encontrado, para quem acredita nessas coisas, e a mesquita de Ali Pasha (1848) onde a tumba do mesmo se encontra. Infelizmente não deu tempo de ir à Citadela de Cairo, provavelmente o local mais interessante de toda Velha Cairo. O album termina com o mítico rio Nilo, downtown de um lado, ilha Gezira e distrito Zamalek de outro, e a estupenda panorâmica da Torre do Cairo, que deve ser bem melhor em dias mais limpos.
Chegava ao fim a aventura. Hora de ir ao aeroporto, pegar o vôo até São Paulo, após uma longa escala em Lisboa. Aquela mistura de tristeza pelo fim de uma viagem que às vezes nem acredito que fiz, e também alegria pois estava mesmo cansado depois de tanta poeira na estrada! No próximo e último post, o mapa do percurso.
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