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Tirana, uma cidade em busca de sua identidade  

Posted by carlos in

Estar viajando em grupo, além do companheirismo, provou ser financeiramente útil ao se viajar pela Albânia, pela sua infraestrutura ainda engatinhando. Nem tanto pelas estradas ruins, mas por não haver serviços regulares de ônibus. O transporte entre cidades se dá por minivans, que só partem quando estão lotadas; a outra opção é dividir um taxi. Ainda mais complicado é se deslocar através das fronteiras, o que é compensado pela paisagem na janela.

De Budva, voltamos nós quatro a Bar. Lá acertamos com um pseudo-taxista que nos levou de Montenegro até Shkoder, já em solo Albanês. A viagem é linda; primeiro cruza-se a serra do litoral de Montenegro, daí se desce e percorre uma longa planície, margeando o lago Skadar (fronteira dos países e maior lago dos Balcans), até subirmos e descermos outra serra, já entrando na Albânia. Mas devo dizer também que vi uma das cenas mais tristes da viagem; logo que se cruza a fronteira, há um vilarejo miserável, sem qualquer traço de presença de governo, pessoas e crianças totalmente largadas pela rua, voando na janela do carro pedindo dinheiro ou comida; não longe dali, o contraste de um castelo medieval no topo de uma colina. Foi de cortar a alma, e ficamos com essa primeira impressão do país; felizmente, as coisas melhoram conforme se move ao sul. Em Shkoder pegamos uma dessas minivans até Tirana.

Tirana, onde ficamos neste albergue, é a maior cidade do país, com cerca de 650 mil moradores. Embora a área seja habitada desde a pré-história, a cidade só foi fundada em 1614 pelo general Otomano Sulejman Pasha; tornou-se capital em 1920, no curto período de independência Albanesa entre a queda dos Otomanos e a conquista por Sérvios e Habsburgos, continuando como capital após os comunistas sobrepujarem os nazistas no fim da segunda guerra. Fica a 36 km do litoral em Durres, cidade onde os primeiros registros do idioma albanês foram encontrados; datados de 1462, fazem parte de um texto religioso escrito pelo arcebispo da cidade, conselheiro de Skanderbeg.
Foi durante o comunismo que a praça Skanderbeg, o coração da cidade, ganhou sua forma atual, tendo ao lado a mesquita Et'hem Bey; concluída em 1823 pelo bisneto de Sulejman, a mesquita permaneceu fechada nos anos Hoxha, sendo reaberta apenas em 1991.

Com o fim do comunismo, os anos 90 viram a cidade adquirir contornos caóticos, principalmente pela migração massiva de pessoas de áreas rurais em busca de melhores condições de vida; a população dobrou em uma década, resultando em uma expansão urbana desenfreada. Junto veio uma invasão de carros antigos e seus motores ultra-poluentes, além de indústrias pesadas, o que deve explicar a enorme poluição e o caos que são as ruas, além do lixo que se acumula ferozmente em áreas fora do centro. Os anos 2000 viram o nascimento da campanha Retorno a Identidade, que tenta arborizar a cidade, aumentar parques e áreas verdes, liberar espaços públicos ilegalmente ocupados nos anos 90, na tentativa de se diminuir a poluição e os entulhos acumulados nas áreas não planejadas da cidade.

Outra curiosa iniciativa foi pintar vários prédios em cores bem vivas (verde, amarelo, azul,...) para se diminuir o dominante tom cinza da cidade, mesmo que seus interiores continuem danificados; como nota, os famosos e excêntricos bunkers que Hoxha construiu aos milhares ainda são visíveis pelas estradas do país. Ao menos pela parte mais central da cidade, o verde já é vasto e o trânsito flui mais naturalmente. Esperávamos encontrar uma população mais fechada e conservadora; mas para surpresa geral, a vida noturna é legal, com bares e música do tradicional ao rock'n'roll, assim como a existência de locais mais ´chiques` em que a nova classe média se exibe. É de se mencionar que os vestígios de Hoxha foram removidos, estátuas, quadros, nomes oficiais, e seu mausoléu fechado e largado pela população.

Tiramos um dia e pegamos outra minivan até a próxima Kruje, local em que Skanderbeg resistiu aos Otomanos por 35 anos. O album a seguir começa com umas fotos da travessia Montenegro-Albânia. Depois, as noites folk e rock, parques, casas coloridas, feirão na periferia; a praça Skanderbeg, centrada pela estátua do herói, que abriga o Museu Histórico (1981), o Teatro Nacional (1953), a Biblioteca (1920), o Parlamento, e a mesquita Et'hem Bey. Por fim, mostra a visita ao castelo de Kruje e sua citadela, e a bela panorâmica do entorno.



Depois da triste impressão inicial, ficamos todos surpresos e alegres por termos conhecido a antes fechada Albânia; Luís inclusive decidiu ficar por mais tempo no país. Tirana é o carro-chefe, passando por essa enorme reabilitação urbana, e com um povo que também se abre aos estrangeiros. Era hora de pegar a próxima minivan, levando nós três até a fronteira com a Macedônia; de lá, teríamos que dividir outro pseudo-taxi (novamente a vantagem de se viajar em grupo por aqui) que nos levasse até o próximo destino: Ohrid, Macedônia!

Albânia: vendo por dentro o país mais fechado da Europa  

Posted by carlos in

Albânia, ou Shqiperi no idioma nativo, é um dos países mais homogêneos e mais pobres da Europa, com 98% de seus 3.5 milhões de habitantes sendo Albaneses étnicos; até pouco mais de uma década era o país mais fechado da Europa, graças a ditadura de Hoxha que durou 40 anos. Tudo o que visse por lá seria uma completa novidade, ao menos para mim. Mas independente deste recente isolamento, o país é todo peculiar. Vizinha dos demais países balcânicos, sua origem não deriva das tribos Eslavas que povoaram o sul europeu, como ocorre em todas as ex-repúblicas Iugoslavas. Pelo contrário, os atuais Albaneses, assim como Finlandeses e Húngaros, falam um idioma totalmente exclusivo, e são descendentes dos povoados Ilírios que habitavam os Balcans e das colônias gregas ao sul, antes da chegada dos Romanos; um mapa de Ptolomeu, de 150 DC, mostra a cidade de Albanópolis (próxima da atual Durres), habitada pela tribo Albani.

Como o resto da península, as terras da atual Albânia passaram ao controle do império Bizantino no ano 395; os Eslavos chegaram no século VI, com os Sérvios mais tarde tomando controle do norte e de Kosovo, além de Venezianos em seu apogeu dominando o litoral; os Otomanos chegaram aos Balcans no século XIV e conquistaram toda Albânia em 1478, começando sua Islamização. Seu domínio durou até 1912; em seu transcorrer, o assimilamento Albanês foi pleno; o território era estratégico para a manutenção do império Otomano nos Balcans, tanto que 42 de seus gran-vizirs foram de origem Albanesa. O único momento de independência Albanesa até então se deu entre 1443 e 1478, quando um exército liderado por Skanderbeg foi capaz de derrotar os Otomanos em seus diversos cercos ao Castelo de Kruje; Skanderbeg morreu em 1468, e hoje está imortalizado como o herói nacional.

Em fins de 1912, a Albânia se declara independente, e é prontamente atacada por Sérvia, Grécia e Bulgária, ávidos por aumentar seus territórios com o esfacelamento Otomano. As fronteiras atuais foram delineadas pelos Austro-Húngaros em 1913, que deixaram significante parte da população fora da atual Albânia, principalmente na Macedônia e na Sérvia, que havia anexado Kosovo. Já na segunda guerra, Itália e depois Alemanha invadiram e tomaram o país, que foi então liberado pelos comunistas em fins de 1944. Foi quando Hoxha, líder do partido, tomou o poder, deixando-o apenas em sua morte, em 1985.

Diferente da Iugoslávia, que sob Tito criou seu próprio regime e não se alinhou com os Russos, Hoxha prontamente se aliou aos Soviéticos e assim ficou até 1960, com a ascenção de Khrushchev; muito provavelmente aliás, embora não uma nação de Eslavos do Sul, Hoxha teria aceitado que a Albânia se integrasse à Iugoslávia tivesse Tito comprado a briga com os Sérvios e devolvido Kosovo à Albânia. Procurou em seguida ajuda Chinesa, e a teve até 1978, ano da chegada de Deng Xiaoping ao poder. Com o fim da ajuda externa, e com a queda do muro de Berlim mais tarde, uma certa liberalização começou; mas ela levou rapidamente esse país de ainda grande população agrícola (60 % da força de trabalho) ao caos, com escândalos de pirâmides financeiras e elevada corrupção anos 90 adentro. O quadro também se agravou com a chegada de refugiados da agressão Sérvia a Kosovo, parecendo pouco mais estável agora que a Albânia começa a se reintegrar ao resto do continente.

Embora Hoxha tenha proibido cultos religiosos moldando um país oficialmente ateu, os séculos anteriores de Islamismo não se apagariam em duas gerações: estima-se que hoje Muçulmanos sejam 80 % e o restante cristãos (ortodoxos e católicos). Por outro lado, nos anos Hoxha, houve profundas melhoras no sistema público de saúde, reforma agrária, e o analfabetismo caiu de 85 % para menos de 5 %, com a taxa feminina sendo a mesma que a masculina, fato que não ocorre em determinados países Islâmicos.

Em solo Albanês, pensava em visitar apenas a capital Tirana e suas imediações. É o que relata o próximo post, desde a saída de Montenegro até a partida à Macedônia.