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Istambul, cruzando o Bósforo e pisando na Ásia  

Posted by carlos in

Pelo centro antigo há inúmeras outras mesquitas definindo a paisagem urbana, espalhadas pelos três albuns anteriores. Dentre elas: Mesquita Fatih (1471), erigida por Mehmed II logo após a conquista de Constantinopla, no sítio de uma antiga igreja Bizantina que aliás hospeda sua tumba; Mesquita Eyup Sultan, a primeira erguida em Constantinopla; Mesquita Bayezid II (1506); Mesquita Nuruosmaniye (1755); Mesquita Atik Ali Pasha (1497). Além destas, as mesquitas Sehzade Mehmet (1548), Rustem Pasha (1563), Kılıç Ali Pasha (1580) e Sokollu Mehmet Pasha (1572), assim como parte das renovações feitas em Topkaki e Hagia Sofia, foram todas feitas por Mimar Sinan, o arquiteto apontado por Suleiman como responsável pelas obras-primas do apogeu Otomano. Costumam dizer que Sinan está para o Islamismo assim como seu contemporâneo Michelangelo está para o Renascimento; é fato.

Era já hora de navegar o Bósforo e chegar a Ásia! Esse é o foco do último album abaixo. Primeiro fiz uma tour de barco que saía ao lado da Nova Mesquita e subia rumo norte passando sob as pontes viárias; no caminho, a vista do suntuoso Dolmabahçe e de uns palácios menores até chegar-se a Fortaleza Rumeliana, construída por Mehmed II em 1452, às vesperas de sua conquista de Constantinopla, para prevenir ajuda aos Bizantinos. Infelizmente nenhum barco chegava perto ao Mar Negro, demos meia volta e retornamos pelo lado Asiático avistando a Fortaleza Anatoliana, erigida em 1394 pelo Sultão Bayezid I, e as pitorescas casas Otomanas antigas.

De volta ao solo não poderia deixar de visitar a Mesquita Suleiman I, pouco atrás da Nova Mesquita, a segunda maior da cidade e feita como uma contraposição a Hagia Sofia, por Sinan, para o sultão do apogeu Otomano em 1558; as tumbas da família de Suleiman e de Sinan lá estão. Não longe de lá se chega às ruínas do Forum Romano de Theodosius, à Universidade de Istambul, ao impressionante Aqueduto Valens (ano 338, restaurado por vários sultões), o principal sistema de abastecimento de Constantinopla, e à Coluna de Constantino, erguida no ano 330 simbolizando a nova capital de Roma.

Finalmente, com a balsa pública fui visitar o lado Asiático, no distrito Üsküdar, oposto à Galata e à cidade antiga. Como qualquer um faria, me sentei num café na margem e fiquei ali, curtindo a Europa pelo lado de fora. A panorâmica é linda, cidade antiga de um lado, arranhas-céu do outro. Uma ilhota em frente possui a Torre de Leandros, feita pelos Gregos em 408 AC, refeita por Bizantinos e Otomanos. O lado Asiático é bem mais simples, mas havia até mais movimento (shoppings, restaurantes, jovens pela rua) do que eu esperava, além de mesquitas, é claro; as mais visíveis sendo a do Sultão Mihrimah (1548), a Şemsi Pasha (1581) e a Yeni Valide (1710). Há vários bairros vizinhos, mas acabei ficando apenas próximo a costa e suas casinhas simpáticas, sem adentrar muito pois já estava para sair de Istambul.

A metrópole de Istambul hoje conta com cerca de 12 milhões de pessoas, 98 % islâmicas sendo 2/3 no lado Europeu, o que a faz a maior da Europa e a quinta maior do mundo. Muita coisa moderna é fartamente visível pelas ruas, e há bairros onde imperam bares, cafés, e uma agitadíssima vida noturna. Porém, o que continua a fascinar é sua majestosa arquitetura herdada dos Otomanos, mesquitas, palácios, harems, hamms (banhos), e os inigualáveis bazares. Como escrevi antes, é preciso semanas para se explorar essa cidade mas, e mesmo apesar de ter caído num golpe, esse lugar é completamente único e inigualável. Obrigatório. Próxima parada...?



AVISO AOS NAVEGANTES: esses caras chegam fazendo amizade, convidando para uma cerveja, te levam de carro para um bar perdido na metrópole aonde você jamais irá descobrir depois; chegando no lugar, que só então você descobre ser um prostíbulo, é tudo rápido, eles começam a pedir bebida e comida de monte, e chegam as ´garotas` bater papo, em geral imigrantes ilegais. De repente, pedem a conta, é uma fortuna e você fica perdido, sabendo que caiu num golpe e não tendo a menor chance de chamar a polícia. Divide-se a conta, eles também pagam mas obviamente são ressarcidos pelo dono do lugar depois, também parte do esquema, e claro que se dizem tão surpresos como você. Até oferecem para te levar embora, e pronto. Numa metrópole daquelas, jamais irás descobrir onde e quem era. Ainda assim, preferi não mudar e não entrar na paranóia de não falar com nenhum nativo nas cidades que visitasse. Quero conhecer gente local, e não havia tido problemas até entao. Mas na Turquia... é bom ficar com os trés pés atrás. E eu ainda estava super relaxado pois havia acabado de sair de um banho Turco. Outro aviso: há banhos Turcos pelo país inteiro, por 1/3 do preço; vá em qualquer outra cidade, menos Istambul.

Istambul, o centro Otomano em Sultanahmet e a miragem de Constantinopla na confluência das águas  

Posted by carlos in

O segundo album foca no imenso Palácio Topkapi, ainda em Sultanahmet na península, a residência oficial dos Sultanato Otomano de 1465 a 1856, que foi iniciado por Mehmed II em 1459 e aumentado principalmente por Suleiman I na época de ouro do império. O palácio é um enorme complexo, com o Harem, inúmeros pavilhões, prédios, quiosques, câmaras, aposentos, jardins, relíquias, mesquita, museu, biblioteca, hospital, e terraços com linda visão, quase uma miragem, do encontro do Bósforo com o Mármara.

Em seu interior, também se encontra o Museu Arqueológico de Istambul (1891) e a
igreja Hagia Irene, primeira igreja Bizantina de Constantinopla, construída por Constantino I no século IV e sede do patriarcado ortodoxo antes de Hagia Sofia.
Além desta igreja, há por toda a área ao redor do castelo ruínas do Grande Palácio de Constantinopla, que foi a morada dos imperadores Bizantinos entre 330 e 1081. Topkaki, assim como boa parte da área de Sultanahmet, foi construído sobre a acrópole em que ficava o centro do império Bizantino; este, por sua vez, suplantou edifícios do império anterior, o Romano. Na área entre Hagia Sofia e a Mesquita Azul, se encontram: as ruínas do Hipódromo, centro social e esportivo Romano, erigido em 203; obeliscos como o de Tutmosis III, trazido de Karnak no Egito em 390 por Theodosius; a cisterna da basílica, do século VI sob Justiniano I, apenas uma das várias cisternas pelos subterrâneos da cidade; a igreja dos Santos Sergius e Bacchus, erigida em 537 por Justiniano I, depois tornada mesquita Küçük Ayasofya.

Terminando o segundo album o inacreditável Grande Bazar (1461), um dos maiores e mais velhos mercados fechados do mundo, com cerca de 1200 lojas em 58 ruelas. Há de tudo neste lugar! Diz a lenda que, aquele que procurar direito, irá achar a lâmpada de Aladin perdida em algum canto; depois de entrar por um de seus portões, você literalmente irá se perder lá dentro até sair por algum outro canto do bairro. Ao lado dele, há um outro, menor e aberto, o Bazar Mahmutpaşa, próximo da mesquita de mesmo nome. Há também fotos da farra no hostel, regada à narguile e dança do ventre!



O terceiro album começa com o Palácio Dolmabahçe, à margem do estreito, que se tornou o centro administrativo do império Otomano entre 1856 e 1922. A dinastia de Osman parecia estar cansada de seu antigo palácio e queria outro ainda mais luxuoso (são 14 toneladas de ouro e os maiores candelabros do mundo em seu interior) e mais Europeizado (seu estilo é um barroco-rococo-neoclássico); o primeiro morador foi o Sultão Abdulmecid. Mas no Dolmabahçe eu não entrei, só curti de fora, ao lado da Torre do Relógio e da mesquita. É que no dia anterior fui estupidamente vítima de uma armadilha para turistas (veja o fim do próximo post), perdi 300 euros em 1 hora, e estava para lá de deprimido; não quiz pagar outro ticket para visitar esse palácio, até porque o custo de vida em Istambul é caro. A vizinhança de Dolmabahçe é mais recente e opulenta, com ricas mansões se espalhando pela margem européia do estreito; no século XIX os sultões também começaram a construir palácios individuais, menores, nessa margem.

Outro foco do terceiro album é o bairro Galata, colônia Genovesa entre 1273-1453, que se conecta à península pela ponte Galata, tudo na margem européia; além da arquitetura particular, nesse bairro se encontra a Torre Galata (1348), que fornece a melhor visão panorâmica do centro antigo no distrito Fatih e do mergulho do Estreito no Mar. É de dilatar as pupilas! De volta ao chão, as antigas ruas de estilo Genovês de Galata dão acesso ao distrito Taksim, na parte mais moderna da cidade, de largas avenidas, arranha-céus e farta vida noturna, após os 3 km da avenida Istkal forrada de lojas, cinemas e restaurantes; junto com o distrito Beyoglu perfazem o lado mais moderno e culturamente diverso da cidade. Cruzando-se a ponte Galata, retornando a Fatih, fica a portentosa Mesquita Yeni Cami (conhecida por Nova Mesquita, feita em 1665); no fim do dia, vidrado por aquela paisagem de mesquitas dominando o céu e aquela multidão indo e vindo entre o Estreito e o Chifre Dourado, eu parei em Yeni para presenciar o culto. Outra parada imperdível ali ao lado é o Bazar das Especiarias; como o nome diz, há coisas e cores e pós e cheiros ali que não se medem em palavras. Não longe, fica a estacão final do antigo Expresso Oriente que cruzava a Europa a partir de Paris.

Istambul, simplesmente um outro mundo  

Posted by carlos in

Conhecer Istambul deveria ser obrigatório a todo ser ocidental. Mesmo depois de já ter vivenciado muito dessa atmosfera em cidades como Sarajevo e Skopje, chega a causar enorme espanto ver a imponência do que restou da era Otomana. É simplesmente um outro mundo. O centro antigo (distrito Fatih), localizado dentro das ruínas do que restou dos muros de Constantinopla, tomados em 1453 quando a Idade Média chegou ao fim; nele, o descomunal Palácio Topkaki dos sultões e as mesquitas estupendas na praça Sultanahmet. A parte mais moderna, que absolutamente em nada deve às grandes metrópoles européias. O Grande Bazar, onde se percebe o significado do comércio para esse povo e tenta-se imaginar como era à época das especiarias Orientais. Os diferentes bairros, onde é visível a diferenca entre os Turcos mais seculares e aqueles mais convencionais.

É preciso muito tempo para se explorar esse lugar, e dei um enorme azar pois choveu por quase toda minha estada, onde fiquei neste albergue, muito legal. De Atenas a Istambul, eu peguei o primeiro avião em cinco meses de estrada pois achei uma super promoção onde o preço era quase o mesmo que o do trem. Depois da introdução nos dois posts anteriores, nada muito a acrescentar à Bizâncio-Constantinopla-Istambul, a colônia grega fundada em 650 AC por Byzas que se tornou capital consecutiva de três impérios, Romano (330-395), Bizantino (395-1453), e Otomano (1453-1922), e desde então o coração da atual Turquia; foi ainda conquistada pela quarta cruzada, ficando sob domínio do chamado império Latino (1204-1261).

A localização estratégica da cidade, com o estreito de Bósforo a ligar Europa e Ásia, a fez testemunhar nascimento, apogeu e morte de impérios. Pelo estreito Oriente e Ocidente trafegaram, tendo o mar Negro ao norte e o mar de Mármara ao sul, que por sua vez se liga ao Egeu e ao Mediterrâneo pelo estreito de Dardanelos. Bósforo tem cerca de 30 km, com sua largura variando de 0.5 a 3.5 km, e vive abarrotado de barcos e balsas que fazem o transporte das pessoas entre os continentes; muita gente mora na Ásia e trabalha na Europa, já que Constantinopla de fato se localizava na parte Européia, que se tornou bem mais desenvolvida. Duas enormes pontes viárias de cerca de 1 km cada atravessam Bósforo, e suas águas banham o chamado Chifre Dourado, reentrância que cria uma pequena península no extremo sul do estreito, no lado Europeu, onde a cidade antiga existia cercada por 22 km de imensas muralhas. Elas foram erigidas por Constantino e reforçadas por Teodósio no século seguinte, além de outras adições com o decorrer dos séculos; com suas inúmeras torres e portões elas se estendiam do continente ao beira-mar. Mesmo após a queda de Constantinopla, o mais complexo sistema de fortificação da Antiguidade resistiu quase intacto até o século XIX quando porções da muralha foram removidas para permitir um crescimento menos desordenado dos bairros vizinhos.

O primeiro album foca na praça Sultanahmet, no distrito de Fatih, o coração do extinto mundo Otomano. Lá, o hoje museu Hagia Sophia defronta-se com a Mesquita do Sultão Ahmet, mais conhecida como Mesquita Azul, com seus seis minaretes construída em 1616; em geral, as mesquitas são o centro de um complexo chamado Külliye, em que também existem escola, hospital, banhos, caravanserai, e os mausoléus da família do Sultão e de seus sucessores imediatos (não, suas colegas de Harém não se hospedavam nos mausoléus, apenas a oficial). O Palácio Topkaki fica pouco atrás de Hagia Sophia, em direção ao Estreito. Concluída no ano 537 pelo imperador Justiniano, a Basílica de Hagia Sophia foi por quase 1000 anos o centro do Patriarcado de Constantinopla, a capital do mundo Ortodoxo Oriental (o Vaticano dos Bizantinos).

Foi nela que se oficializou o Cisma católico-ortodoxo em 1054. Logo após a queda de Constantinopla em 1453, Mehmed II a transformou em mesquita, e por quase 500 anos ela foi a principal mesquita Otomana. Ataturk a secularizou e a transformou em museu em 1935. A ousadia de Hagia Sophia é um dos maiores exemplos vivos da arquitetura Bizantina, tendo influenciado basílicas e mesquitas por toda a parte. Hoje, o Patriarcado Ortodoxo da Turquia é centrado na igreja de São Jorge, uma pequena construção neoclássica do sec XIX, enquanto inúmeras igrejas ortodoxas mundo afora tornaram-se autocéfalas (cada país tem seu patriarcado independente). O album termina com fotos do Arasta Bazar, próximo ao albergue, e das ruínas da muralha em sua parte à beira-mar com o que restou do Porphyrogenitus (século XIII), o único palácio sobrevivente Bizantino. Além da arquitetura impressionante, o que deixa o cidadão de boca aberta nessas mesquitas, mausoléus e palácios são a decoração e os azulejos interiores pelas paredes e domos; talvez as inúmeras fotos ilustrem esse fato!

Turquia, do império Otomano à república secular  

Posted by carlos in

(...continuação)

Um desses Emirados, sob regência da dinastia Osman, logo conseguiu se impor e declarou independência em 1299, aos poucos reunificando boa parte da Anatólia contra os Mongóis; esse ano marca o início oficial do império Otomano, que tomou seu nome da dinastia Osman (Uthman). Filho de Ertrugul, que era o líder de um clã Oghuz, os Kayi, em 1299 Osman I começou a expansão das terras do então Emirado, que em 1452 já chegara até os limites Bizantinos. Finalmente, em 1453 o Sultão Mehmed II, depois de um cerco de 53 dias, conquistou Constantinopla e tornou-a capital do império Otomano, marcando o fim do império Bizantino e o início da expansão Islâmica por uma Europa até então completamente Cristã; vale notar que Mehmed II continuou permitindo o culto cristão (Ortodoxo) além de aceitar os Judeus que fugiam da inquisição Espanhola.

A época de ouro Otomana se deu com o Sultão Suleiman I O Magnífico, que governou de 1520 a 1566, período em que Balcans, Oriente Médio e Norte da Africa foram conquistados, e que promoveu várias reformas no funcionamento da sociedade Otomana. Apesar da origem Turca, a cultura Otomana acabou se misturando às culturas dominadas mas manteve sempre a dominância de elementos Turcos e Árabes, além de Persas e Bizantinos. O pico de sua expansão se deu em 1683, ano do cerco a Viena e do início da reação dos Habsburgos, enquanto os séculos XVIII e XIX viram um gradual declínio das possessões em domínio de seus gran-vizirs. O império Otomano entrou no século XX já desmoronando por causa do renascimento do nacionalismo em suas terras Européias e Árabes, e se viu quase forçado a entrar na primeira guerra ao lado dos Austro-Húngaros (e Alemães); com a clamorosa derrota simultânea de Habsburgos e Otomanos, as potências Aliadas tentaram partilhar o que restava do império Otomano, pelo tratado de Sèvres de 1920.

Foi como resposta a tal partilha que surge a figura do mito nacional Mustafa Kemal Pasha, logo renomeado Ataturk (Pai dos Turcos), mobilizando o nacionalismo Turco e reorganizando parte do extinto exército Otomano na Anatolia. Sendo bem sucedido na luta de independência e expulsando os exércitos Aliados, Ataturk fundou a República da Turquia em 1922 e tornou-se seu primeiro presidente; mudou o nome de Constantinopla para Istambul e mudou a capital para Ankara, no centro do país, além de extinguir os vestígios do Sultanato Otomano ao exilar o último Sultão. O tratado de Lausanne de 1923 reconheceu a Turquia em suas atuais fronteiras.

Ataturk implantou radicais reformas no país: tornou a Turquia um país secular; uniu o sistema educacional e fez com que o Turco passasse a ser ensinado no alfabeto Latino em vez do Persa-Árabe, que era acessível apenas à elite, na tentativa de se alfabetizar a maioria da população; baniu o uso do véu feminino nas universidades e em locais públicos e concedeu às mulheres direitos civis iguais aos homens, quando elas passaram a poder votar e concorrer a cargos políticos bem antes que muitos países ocidentais fizessem o mesmo; aboliu os trajes típicos que expressavam a hierarquia religiosa e social dos cidadãos. Para Ataturk, o fato de a Europa Cristã ter tido seu arcaico funcionamento (leis, escolas, comércio) drasticamente alterado por eventos tais como Renascimento e Revolução Francesa se tornou o ponto de diferenciação com o mundo Islâmico, que preservara até então suas próprias estruturas arcaicas onde a religião ainda determinava o funcionamento da sociedade; para ele, essa foi a causa real do fim Otomano.

Não seria simples implementar reformas tão radicais no seio de uma população com fortes laços às suas origens e costumes tribais e religiosos. O fato de tais reformas ocorrerem muito rapidamente e sem consultas maiores aos líderes das antigas estruturas causou e ainda causa certa tensão entre uma sociedade mais modernizada (visível nos grandes centros urbanos) e outra mais apegada aos antigos costumes (no interior e em povoados mais afastados), que não as absorveram por completo. Por exemplo, o uso do véu feminino em locais públicos e universidades tem sido motivo constante de muito debate.

Cerca de 85% dos atuais 70 milhões de habitantes do país são Turcos étnicos, 97% Islâmicos (Sunitas na maioria), com 4.5 milhões na capital Ankara, mas a grande maioria, cerca de 12 milhões, vivendo no coração cultural e econômico do país, na área metropolitana de Istambul. Cerca de 12 milhões de Turcos vivem fora do país, 3 milhões só na Alemanha. Ainda existem três fontes de tensões internacionais: o conflito com a Grécia pelo Chipre; as rebeliões da minoria Curda (12 milhões) por autonomia no sudeste Turco; e o reconhecimento Turco do genocídio Armênio ao fim da primeira guerra mundial, quando 1.5 milhão de Armênios, que chegaram a compor 25% da população Otomana, foram massacrados ou deportados (a vizinha e ortodoxa Armênia aliara-se à Rússia contra os Otomanos).

Depois de um pouco de história, vamos conhecer Istambul!

Turquia, seu embrião nos impérios Gokturk e Seljuk  

Posted by carlos in

Pois é, depois do esplendor e riqueza de Viena, herança dos Habsburgos e de seu império Austro-Húngaro que delinearam a Europa ocidental; depois de Roma e Atenas, a cultura Helenista e o império Católico que pariram o Ocidente; depois de Sarajevo e todo Balcans, majoritariamente Ortodoxo e com forte presença Islâmica; depois de já ter cruzado 30 países toda a Europa, era chegada a hora de mergulhar por completo no Oriente Islâmico: Turquia, onde o Estreito de Bósforo separa Europa e Ásia, e onde se localiza a capital dos antigos impérios Bizantino e Otomano e da hoje secular Turquia, a cidade de Bizâncio-Constantinopla-Istambul, a partir de onde o Islamismo invadiu a Europa em 1453 com a queda de Constantinopla (maiores detalhes do defunto Império Bizantino se encontram em posts da Grécia e dos Balcans). Antes do turismo, vou gastar dois posts para pegar o fio da meada, e tentar entender como esse país e sua capital, onde se tem a impressão de termos entrado em outro planeta, veio a ser o que é. Impossível falar de Turquia sem antes falar do império Otomano que lhe deu origem, de como ele surgiu em 1299 e terminou após a primeira guerra mundial em 1923.

A palavra Turco não designa apenas os moradores da Turquia, mas se aplica a toda uma etnia de tribos nômades que na Antiguidade migrou da Ásia Central rumo ao Oeste; outros países da Ásia Central também tem raízes Turcas. Tido como o embrião da nação Turca, o império Gokturk (552-747) se estabeleceu do mar Aral até a China após o colapso da parte Asiática do império Huno; seu líder Kan Bumin era do clã Ashina. No começo dos anos 600, uma guerra civil opôs tribos e dividiu Gokturk em partes Oriental e Ocidental. A parte oriental tentou várias invasões à China, e acabou sucumbindo. A parte ocidental chegou a se aliar aos Bizantinos contra os Persas, e sucumbiu após o contato com kanatos de outras etnias (Bulgars, Khazars) e revoltas internas (Uighurs); várias tribos Gokturk continuaram sua migração pela Ásia Menor, dentre elas os Oghuz, cuja confedereção se localizava às fronteiras do mundo Muçulmano. No século X um clã Oghuz, os Kinik, migrou para a Pérsia e assimilou sua cultura e Islamismo (a Pérsia já estava sob domínio Árabe à época). Após algumas décadas a dinastia Kinik dominante, os Seljuk, foi capaz de unir a parte mais oriental do mundo islâmico, de onde emergiu o Império Seljuk (1037-1194) fundado por Tugrul Beg, que chegou a se estender até conquistar a Anatólia em 1071, na atual Turquia e então parte do império Bizantino.

Antes dos Seljuk, a Anatólia já havia sido morada dos Hititas (séculos XVIII-XIII AC), depois Assírios, Babilônios, Frígios; paralelamente, desde o século XII AC colônias Gregas proliferaram por sua costa, como Éfeso, Izmir, Bizâncio. Os Persas a conquistaram no século VI AC; depois foi a vez dos Macedônios e Alexandre o Grande a conquistou em 334 AC, dividindo-a em menores reinados como a Capadócia, no centro; veio por fim a ser anexada pelo império Romano no século I AC. O imperador Constantino em 330 tornou Bizâncio a nova capital de Roma, que a partir de 395 viria a se tornar a capital de Roma Oriental (império Bizantino) após a divisão do império em Roma Oriental e Roma Ocidental; os Bizantinos viriam a controlar boa parte da Anatólia até o século X. Bizâncio foi renomeada para Constantinopla após a morte de Constantino.

Voltando aos Seljuk. Sob seu domínio na Pérsia nasceu a cultura Turco-Persa, resultado da grande assimilação mútua entre as etnias; além de Turco e Iraniano, falava-se o Árabe desde que a Pérsia entrara na esfera do mundo Muçulmano séculos antes. Com seu apogeu territorial varrendo da Anatólia até a Ásia Central, em 1092 os Seljuk viram seu império dividido pela lutra entre sucessores de Malikshah I; por exemplo, Arslan I fundou o Sultanato de Rum (alusão à Roma) na Anatólia, que existiu de 1077 a 1299. Pelas disputas internas, o império Seljuk se tornou presa fácil da primeira cruzada que reconquistou Jerusalem em 1099; a segunda cruzada em 1147 trouxe-lhe maiores subdivisões e conflitos internos e precipitaram o fim de seu império, em 1194. Apenas o Sultanato de Rum restou. À mesma época expandia-se pela Ásia o império Mongol de Gengis Khan (nascido Temujin), que foi capaz de unir as tribos da Ásia Central. Sob sua liderança (de 1206 até a morte em 1227) e a de seu filho Ogedei Khan nas décadas seguintes, os Mongóis erigiram o maior império em terras contíguas da história, do leste Europeu à China, que perdurou de 1206 a 1370. Após a morte de Genghis Khan o império Mongol foi dividido em kanatos distribuídos entre seus filhos e netos. Embora os Seljuk em Rum tenham resistido às cruzadas, não resistiram aos Mongóis que conquistaram toda a Anatólia em 1260, tornando-a um kanato; o Sultanato de Rum foi partilhado em Emirados governados por um Seljuk obediente aos Mongóis.

(continua...)