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Da Estônia finalmente à Rússia, certo? Errado.  

Posted by carlos in

Pois é, e agora José?

Com a inversão de itinerário que tive que fazer na Itália por não ter conseguido o visto Russo (ia tomar um vôo de lá até a Rússia para então descer pelo leste Europeu) acabara de chegar na Estônia a 80 km de onde estive meses antes, ainda sem congelar, na Finlândia. Tudo em vão já que novamente não consegui o visto Russo pois na semana em que estive em Tallinn era feriado super prolongado na Rússia, e o consulado ficou dias fechado. Eu não podia prolongar mais aquela incerta espera, e pela segunda e última vez dei com a cara na porta Russa, dessa vez estando ali ao lado. Assim como ocorrera com Ucrânia, Bielo-Rússia e Moldávia, fui obrigado a dolorosamente riscar a Rússia de meu rumo e apelar a um plano Z! Isso porque já estava assinado há um ano o acordo bilateral Brasil-Rússia, isentando ambos os lados de visto de Turismo, mas nossa maldita burocracia ainda não o aplicara.

Obviamente estava putíssimo pois, não fosse pelo desejo de entrar na Rússia, eu teria facilmente visitado os Bálticos quando estive na Finlândia, e não teria subido até aqui de novo. Tempo e dinheiro e inverno. Além disso, meu ticket de retorno (do Marrocos) já estava vencendo, e eu decidi fazer outra maluquice e continuar pela estrada por mais um mês. Só achei um ticket de retorno com preço razoável a partir do Egito. Com isso, troquei o trajeto Egito-Marrocos que faria por todo norte da África por outro até mais complicado, Turquia-Egito cruzando todo o Oriente Médio por terra.

Ainda na Estônia, depois de uma garrafa de vodka Russa, consegui um ticket low-cost até Ankara, capital Turca, país onde recentemente visitara a inigualável Istambul. Em Ankara tentaria o visto Sírio e me mandaria para a fronteira, conhecendo no caminho a surreal Capadócia; claro que também havia certo risco nesse plano pois se o consulado Sírio me negasse o visto, como o fez, eu ficaria sem ter como ir da Turquia rumo ao Egito, a não ser que me metesse pelo Iraque...

Pois vamos a Ankara no próximo post então!

a quem possa interessar: acabei arriscando e estourei o tempo no Schengen, por apenas uma semana (no meu caso foram três meses descontínuos, terminados quando já completava seis meses na estrada); felizmente, ao sair dele pela Estônia nada aconteceu. Como é sabido, há países com controle mais rígido dessas fronteiras do que outros; conheci gente na estrada que também extrapolou os limites, uns se deram mal em certos países, outros nada passaram.

Tallinn, o mais preservado dos centros medievais  

Posted by carlos in

Cheguei na pequena Tallinn, capital e maior cidade da pequena Estônia, com o ônibus de Riga e lá fiquei neste albergue. Ela ocupa uma área de 160 km^2 e tem apenas 400 mil habitantes, 39% Russos; sua população diminuiu cerca de 20% após o fim do Comunismo. Encravada à margem sul do Golfo da Finlândia, dista apenas 80 km de Helsinque; esse Golfo começa em São Petersburgo na Rússia e se prolonga até mergulhar no Báltico, o que atesta a posição estratégica privilegiada do porto de Tallinn.

Sua história tem momentos semelhantes aos da capital vizinha ao sul, Riga (veja post inicial da Letônia). No século XI ela já possuia um forte, antes que os Dinamarqueses a tomassem em 1219. Em 1285 Tallinn já integrava a Liga Hanseática, época em que o cristianismo já era imposto aos seus moradores e o castelo Toompea foi construído na colina que abrigava o forte, até que em 1386 os cruzados Alemães da Ordem Teutônica a compraram dos Dinamarqueses. Com a Reforma Protestante os Alemães a converteram ao Luteranismo, e em 1561 os Suecos a conquistaram. Em 1710 os Russos a tomaram dos Suecos, assim como fizeram com o resto da Estônia e a Livônia. O século XIX viu maior industrialização e Russificação da cidade. Entre a independência Estoniana ao fim da primeira guerra e o fim da segunda guerra, Tallinn mudou de mãos entre Alemães e Soviéticos até se tornar a capital da nova república Soviética Estoniana em 1944. A independência só veio após o fim do Comunismo nos anos 90, quando sua demografia já se alterara bastante conforme acontecera em todo Báltico.

Saindo para enfrentar o frio e conhecer a cidade, antes de ir ao centro,
os principais distritos são Pirita, que possui praias de areia mas não me parecia uma boa idéia cair na ´água` à época, e Lasnamae, que abriga cerca de um terço da população, 60% Russos e nem todos possuidores de cidadania Estoniana por não quererem aprender e falar a língua local. Mas é no distrito Kesklinn que ficam o centro atual e o centro histórico, vizinhos entre si e próximos ao porto. No centro atual, arranha-céus e largas avenidas, o Teatro Nacional e a Biblioteca nacional, o KUMU (maior museus dos Bálticos), e o belo Palácio Kadriorg, antiga morada de Catarina I da Rússia, esposa de Pedro O Grande.

Já o medieval centro histórico, mais outro sítio da Unesco, tem duas partes: a colina Toompea e a cidade antiga, que no passado não se conectavam. Na colina, fica o Castelo Toompea, morada das aristocracias invasoras (Dinarmaquesa, Teutônica-Alemã, Sueca, Russa) e testemunha de todas as fases históricas pelas quais a Estônia (e a Livônia enquanto existiu) passou; o primeiro forte no local data de 1050, ainda em tempos pagãos. Também no complexo do Castelo fica a Torre Herman e as ruínas dos muros da cidade, erguidos pelos Teutônicos com novas torres adicionadas pelos demais conquistadores. O castelo hoje abriga a sede do parlamento e o palácio da presidência; nas suas vizinhanças, a catedral Toomkirik do século XII e tornada Luterana em 1561, e a bela catedral ortodoxa Alexander Nevsky (1900), símbolo dos tempos da ocupação Russa dentre a maioria Luterana, além de inúmeras embaixadas. Pela lateral do castelo, hoje conectado à cidade baixa por algumas passagens pitorescas, há vários pontos com visão panorâmica bem legais, possível de se ver até o Golfo.

Abaixo e ao lado da colina fica a cidade antiga, morada dos cidadãos comuns e mercadores, que se formou junto à liga Hanseática. Foi só com o surgimento de mais povoados ao sul, na direção oposta ao Golfo, que mais Estonianos vieram a morar na cidade, aos poucos tornando-se maioria. De toda sua arquitetura, destacam-se a igreja de São Olavo (1549), a igreja de São Nicolas (1275), e o mixto barroco-neoclássico ao redor da pitoresca praça central do town hall (1322), sempre com algum evento rolando. Os bares/restaurantes do centro antigo tem uma bacaníssima ´decoracao` medieval, com música típica tocada em instrumentos de época; foram dos bares mais decentes que conheci. Também obrigatório é se perder pelas ruelas e becos com seus vários ateliês e galerias, principalmente perto da Passagem de Catarina. Como nota, 20 das 66 torres originais da cidade ainda restam imponentes.

AVISO: Tallinn é a quinta cidade cujas fotos se perderam no assalto que sofri em Jerusalém (detalhes no post daquela cidade, posterior); perdi um mês de fotos sem backup. Para não ficar só na descrição, seguem abaixo alguns links da net, fotos de terceiros.

http://www.tourism.tallinn.ee/fpage/explore/attractions/az
http://www.oldtallinn.com/
http://www.tripadvisor.co.uk/LocationPhotos-g274952-Estonia.html
http://photos.igougo.com/pictures-l630-Tallinn_photos.html
http://www.galenfrysinger.com/estonia_tallinn.htm



Todas as três capitais Bálticas são bem interessantes de se conhecer por alguns dias, mas confesso que Tallinn foi a que me seduziu mais. Era hora de tomar uma drástica decisão quanto aos novos rumos a se tomar ao sair da Estônia. No próximo post eu explico o problema.

Estônia, o menor e mais distinto dos países Bálticos  

Posted by carlos in

O povo Estoniano é o mais distinto dos três países Bálticos, pois não descende de nenhuma das tribos Bálticas que originaram Lituânia e Letônia, Indo-Européias como quase toda a Europa. Ele é um povo Fínico, cujo idioma é mais próximo aos Finlandeses (ambos de origens próximas aos quase-extintos Livônios), aos povos Sami na Lapônia e aos Karélios divididos entre Rússia e Finlândia. O ramo Fino-Úgrico, do qual povos Úgricos como o Húngaro também fazem parte, não tem qualquer relação com o ramo Indo-Europeu dominante das línguas Europeáis (Latinas, Eslavas, Germânicas). Ainda é um certo mistério o porquê de povos etnicamente distintos como Finlandeses e Húngaros terem a mesma matriz linguística.

A atual Estônia foi ocupada no último milênio por Dinamarqueses, Teutônicos (Alemães), Suecos, Russos, e por fim a União Soviética. Pelo século XII várias sagas da Escandinávia, já cristianizada à época, mencionavam batalhas contra os povos pagãos que originaram os Estonianos. A história medieval desse país é muito ligada à da Letônia por causa da Livônia, uma região habitada por tal tribo pagã que ocupava os atuais sul Estoniano e norte Letão, e que foi conquistada pelos Cruzados Alemães da Ordem Teutônica em 1227. Até então, sua mitologia cultuava a deusa Tharapita, provavelmente influenciada pelo deus Thor do antigo paganismo Escandinavo (Thor em Estoniano é Taara).

A história subsequente está detalhada no post inicial da Letônia, desde o fim da Livônia em 1561 com o norte passando à Suécia e o sul passando à Liga Polônia-Lituânia, até chegar em 1710 e em 1772 quando os Russos tomaram respectivamente norte e sul estabelecendo um domínio que durou até o fim da primeira guerra mundial. Assim como nos demais países Bálticos, uma onda nacionalista tomou forma no século XIX, em contrapartida à Russificação ocupante; a independência foi proclamada em Tallinn em 1918, após a revolução Russa. O curto período independente durou até a ocupação Soviética em 1940, seguida pela invasão Nazista até a retomada pelos Soviéticos em 1944. Cerca de 25% de seus habitantes desapareceram na segunda guerra, com outra porcentagem semelhante deportada paralelamente à massiva imigração Russa.

A aguardada independência dos países Bálticos após o fim do Comunismo em 1990 viu a demografia Estoniana drasticamente alterada; dos atuais 1.3 milhão de moradores, 68% são Estoniano e 26% Russos. Curiosamente, e talvez um reflexo da onda nacionalista que usava o mito de Tharapita como uma antítese aos ocupantes cristãos (Russos ortodoxos e Alemães protestantes, além do catolicismo inicial dos Teutônicos), cerca de 70% da população se declara sem religião. Desde 2004 o país integra a União Européia e tem tentado se aproximar mais aos países Nórdicos do que aos Bálticos pela maior afinidade.

Próximo post, fotos!