Depois da recente epopéia para ir de Petra a Dahab, finalmente cheguei. E como valeu a pena!
Dahab fica no sudeste da Península do Sinai, no Golfo de Aqaba já às portas do Mar Vermelho, de onde inclusive é visível a Arábia Saudita do outro lado do Golfo. É uma das cidades que fazem parte da chamada Riviera do Mar Vermelho. Era inicialmente uma vila pesqueira de Beduínos, e hoje é praticamente toda voltada ao turismo, e renomada pelas atividades de mergulho em suas águas repletas de corais e por todos os esportes aquáticos; aqui fica o Buraco Azul, tido como o sítio de mergulho mais perigoso do planeta, 40 mortes já contabilizadas em 130 metros de profundidade traiçoeira. Dahab foi conquistada junto com todo o Sinai por Israel na guerra de 1967, retornando a mãos Egípcias em 1982.
O lugar é realmente belíssimo e, depois de toda a tensão vivida em Jerusalém e na travessia da fronteira em Eilat, eu queria mesmo um lugar desses. Mas dei sorte em algo; fiquei num quarto-albergue que era parte deste resort super luxuoso, pagava-se preço de mochileiro e podia-se curtir todas as dependências do lugar, acho que só o café da manhã incluído seria mais caro que a diária que paguei!
Ficar dias a esmo curtindo o Mar Vermelho, sol, água e areia. E ainda com toda aquela exótica paisagem e as montanhas da península fazendo quase que um escudo ao litoral. Era baixa temporada quando eu estive por lá, estava bem calmo; há infindáveis restauratnes, bares, lojas, tudo num espaço relativamente curto. Mas dá para imaginar que na alta temporada o lugar fique abarrotado. O que é bom para todos os vendedores de lá, inclusive para as crianças Beduínas que ficam andando para cima e para baixo vendendo artesanato parte do dia; há uma vila de Beduínos mais ao sul e era triste ver suas crianças trabalhando assim, mas me animava quando via que elas passavam outra parte do dia brincando pelas praias mais afastadas.
O Monte Sinai fica próximo de Dahab. Só dá para ir em excursões, e caras. Eu acabei decidindo ficar pelas praias mesmo; sei que perdi paisagens únicas daquelas montanhas todas. O album abaixo mostra essa linda parte do planeta. Praias cristalinas, montanhas mais que pitorescas ao fundo, uma mistura bem diferente mesmo. 'Roubei' umas fotos daquelas crianças; de uma delas eu comprei as únicas lembranças materiais que trouxe dos 42 países de meu giro, garantia de que não vou esquecer o que aquele lugar e seu povo me fizeram sentir. Tão inesquecíveis quanto o pôr-do-sol no Sinai.
De Dahab, de alguma forma eu iria parar em Luxor. Haviam duas maneiras: uma mais curta, parte do trajeto pegava uma balsa da ponta da Península e cruzava o Golfo até o continente; outra mais longa, contornava a Península indo ao norte para depois descer até Luxor. A segunda era metade do preço, e como já havia gasto demais com tudo o que me ocorreu pelo Oriente Médio, foi a escolhida. Novamente, a decisão errada; foi a viagem mais aterradora que fiz em todo meu giro. Não saberei descrever; se estiveres por lá algum dia, pague mais caro, mas pegue o outro trajeto.
Muito bem, depois dos dois últimos posts sobre história, hora de conhecer o Egito! Primeira parada: Dahab, no sudeste da Península do Sinai. Sem antes outra trivial demonstração da mentalidade Israelense (aqui também!?). E a nuvem negra que ganhei em Jerusalém não parava de me seguir.
Para ir de Petra ao Egito é preciso pegar um ônibus até a cidade de Aqaba, ainda na Jordânia, que fica na esquina de terra onde se inicia o Golfo de Aqaba que, junto com o Golfo de Suez, delineiam a Península do Sinai. Em Aqaba o plano inicial era pegar um barco que fazia a travessia daquele Golfo até terras Egípcias, dessa forma evitando pisar em Israel de novo dar mais de meu dinheiro a esse estado doente. Mas fiquei sabendo que tal barco era super incerto, sem horários confiáveis, nada garantido; e só me restavam poucos dias antes do vôo de retorno.
Acabei me convencendo a mudar de idéia, e o único caminho por terra era cruzar os 20 km Israelenses que ficam à margem do Golfo de Aqaba passando-se por sua única cidade, Eilat. Como eu já havia entrado em Israel antes, pensei que os trâmites na fronteira dessa vez seriam simples; na primeira entrada, eu até que estava meio receoso por haver uma 'carta-protesto' que eu escrevi em 2006 após a selvageria covarde Israelense no Líbano e que enviei para zilhões de emails, e que acabou saindo em dado site Árabe (sem contar a estampa Síria em meu passaporte). Como foi tudo normal daquela vez, não deveria haver problema agora, e peguei assim uma lotação de Aqaba até a fronteira de Israel.
Dessa vez porém, e mesmo após eu ter dito que só iria cruzar os míseros 20 km da costa do país sem nem mesmo pernoitar em Israel, a bela garota do exército, depois de me fazer esperar um longo tempo enquanto consultava alguem ao telefone, retornou perguntando-me se por acaso eu era escritor... ; respondi que não, mas que gostava de escrever textos e enviá-los mundo afora quando via situações inaceitáveis que mereciam meu interesse (além de gostar de expressar minha opinião como enfaticamente o fiz nos posts de Israel e Palestina neste blog). Ela voltou ao telefone e me pediu para sair. Algumas horas depois, a beldade de farda me chama de volta, devolve o passaporte e diz que eu tinha 24 horas para deixar o país.
Entendi o recado. Paguei àquele Estado fascista mais uma vez, e ainda tive que pagar um táxi da fronteira até a rodoviária de Eilat, onde pegaria um ônibus até a fronteira Egípcia, para lá pegar outro a Dahab. Mas eis que, muito coincidentemente, enquanto estava eu à espera na rodoviária, vejo a beldade de farda pelo saguão, que aliás percebeu quando eu a reconheci. Pensei comigo: é mesmo impressionante como essas coincidências acontecem, estarmos assim no mesmo lugar de novo. Mas adoraria saber o que teria acontecido se eu não tivesse pego aquele ônibus... .
Quanta coisa pode acontecer em 20 km por esse lados. Ao tentar entrar no Egito, me disseram que a taxa do visto era muito mais cara ali (para quem tira no aeroporto é barato), e eu ainda teria que pagar uma segunda taxa se eu fosse sair da área do Sinai, por ser aquela uma zona especial. Fiquei com a quase certeza que os caras estavam querendo me extorquir, mas voltar a Israel é que não podia. Paguei a fortuna. Como o trâmite em Israel demorou muito, já não havia mais gente cruzando a fronteira para ocupar as lotações saindo da fronteira. Fui obrigado a pagar outra fortuna e ir sozinho numa lotação até Dahab.
Perdi o dia inteiro, paguei uma fortuna a Israel, ao Egito, e à lotação. Minha nuvem negra era mesmo poderosa. Por que cargas d'água eu não peguei o maldito barco? Mas vamos a Dahab então, tentar se 'lavar' nas águas do Mar Vermelho.
(...continuação)
No período que se estende do fim do Novo Reino em 1070 AC até a conquista de Alexandre O Grande em 332 AC (que veio a fundar Alexandria no Mediterrâneo), o Vale dos Reis deixou de ser a morada mortuária dos faraós e o país viu nova descentralização; ele engloba da vigésima primeira à trigésima primeira dinastias, muitas delas de origem estrangeira, dos países que ocuparam o Egito, a trigésima sendo a última dinastia de um faraó local (Nectanebo II, 360-343 AC).
Começou então a dinastia Ptolomaica, cuja capital era Alexandria e que durou de 305 a 30 AC, quando o Egito se tornou província de Roma; essa dinastia foi iniciada por Ptolomeu I e terminada por Cleópatra VII, a qual governou de 51 AC até seu suicídio em 30 AC. Cleópara era amante do ditador Romano Júlio Cesar e tinha um caso com o general Romano Marco Antonio; quando Júlio os desmascarou foi assassinado em 44 AC, e na sucessão ao trono Marco foi derrotado por Otávio, herdeiro de Júlio, que viria a se tornar o imperador Otávio Augusto; Cleópatra se suicidou, e sua dinastia Greco-Macedônia perdeu o Egito que caiu sob controle Romano.
O controle Romano durou de 30 AC até 639, tendo passado ao império Bizantino em 395 após a divisão de Roma; foi nesse período que surgiu a igreja Cóptica Ortodoxa em 451, e o domínio Bizantino acabou fazendo com que o Grego em vez do Latim, além do Egípcio, fosse usado. A conquista Árabe ocorreu em 639 e seu domínio durou até 1517, período em que o Árabe foi disseminado dando origem ao atual dialeto Árabe-Egípcio e o Islamismo Sunita se instarou no país; nesse mesmo período, vários foram os ataques Cruzados e estima-se que a peste negra tenha matado cerca de 40% da população no século XIV. Finalmente veio o domínio Otomano que se estendeu de 1517 a 1802, ano em que as tropas de Napoleão que haviam aportado no país foram expulsas e o general Otomano de origem Albanesa Muhhamad Ali Pasha tomou o controle nacional.
Embora o domínio Otomano oficialmente tenha durado até seu fim na primeira guerra mundial, a dinastia de Ali Pasha governou de forma autônoma o Egito até 1882, quando o país foi invadido pelo Reino Unido. Essa dinastia trouxe uma maior modernização ao país, fez muitas obras como o Canal de Suez concluído em 1869, mas estas trouxeram enorme endividamento, o que acarretou a invasão Inglesa cujo domínio se estendeu até 1952, época em que a dinastia Ali Pasha se tornou um governo-fantoche.
A revolução Egípcia de 1952 comandada por Nasser foi causada pela grande revolta contra os privilégios da dinastia e dos Ingleses, e contra a Partilha do Canal de Suez proposta para o pagamento da dívida. A República do Egito foi proclamada em 1953 e Nasser assumiu a presidência em 1956, ano em que ele nacionalizou o Canal de Suez. Morto em 1970 foi sucedido por Sadat, que mudou de lado na Guerra Fria passando a apoiar os EUA em vez dos Soviéticos. Assassinado em 1981, foi sucedido pelo atual presidente Mubarak, do partido único que comanda o país.
Depois de eu aprender mais de sua história, hora de chegar na primeira parada no Egito, a paradisíaca Dahab no Sinai.
Antes do turismo no país das pirâmides e faraós vou me arriscar a uma recapitulação das fases da história Egípcia, até para se contextualizar seus monumentos milenares. Hoje em dia, são cerca de 80 milhões de habitantes, 90% Sunitas e a maior minoria sendo de Cópticos Ortodoxos; 99% da população mora em 6% do país, ao redor do Rio Nilo, o resto ficando com os desertos do Saara e da Líbia.
No período pré-dinástico (antes de 3000 AC) culturas neolíticas se instalaram às margens do Rio Nilo por volta de 6000 AC, e se desenvolveram independentemente no Egito Superior (sul) e Inferior (norte); três delas, Badaria, Naqada e Merimda, são tidas como precursoras do Egito dinástico. Durante cerca de três mil anos as tribos do Egito Superior e Inferior evoluíram e entraram em contato esporadicamente. A história do Egito Antigo começa com sua unificação ao redor de 3150 AC, sendo o Rei Menes tido como o responsável; o Egito Inferior, capital Memphis, ruínas próximas à Giza, e o Superior, capital Tebas, pelo sítio da atual Luxor. Menes iniciou uma série de dinastias que percorreram os três mil anos seguintes.
Após a segunda dinastia começa o chamado Velho Reino (2680-2150 AC), que engloba da terceira à sexta dinastias e cuja capital era Memphis. Esse talvez seja o período mais popular hoje, em que pirâmides eram construídas como os locais de sepultamento dos faraós. As mais famosas são a pequena Djoser (2668-2649 AC), em Saqqara, de um faraó da terceira dinastia e construída por seu vizir Imhotep; mas principalmente, as três pirâmides em Giza, há cerca de 30 km de Saqqara, construídas por faraós da quarta dinastia: Khufu (Quéops, 2589-2566 AC), a Grande Pirâmide, de 147 metros; Khafra (Quéfren, 2558-2532 AC), apenas 3 metros mais curta; e Menkaura (Miquerinos, 2532-2503 AC), a menor de todas com 65 metros. A Esfinge também foi supostamente construída por Khafra. Essas obras são testemunhas de quase 5 mil anos do poder faraônico de outrora.
Entre 2150 a 1550 AC os faraós viram certa decadência por lutas internas, desunião entre Egito Superior e Inferior, pragas naturais, e invasão dos Hicsos. Esses seis séculos viram passar da sétima à décima sétima dinastias, a capital ser transferida para Tebas e os primeiros faraós serem sepultados no Vale dos Reis; nesse período também houve o chamado Médio Reino onde os faraós viram uma relativa recuperação.
O Novo Reino (1550-1070 AC) engloba da décima oitava à vigésima dinastias, e testemunha o apogeu Egípcio que chegou a se estender até a Núbia ao sul (3/4 de seu reino ficavam no norte do atual Sudão) e ao Oriente Médio após batalhas contra os Hititas. Com a capital em Tebas, nele se construíram os hoje imperdíveis Templos de Luxor e Karnak. Os mais conhecidos faraós são do Novo Reino: Hatshepsut (mulher, cujo fabuloso templo mortuário se localiza ao lado do Vale dos Reis), Tutmés III, Amenhotep III, Amenhotep IV (que mudou seu nome para Akenaton) e sua esposa Nefertiti, e Tutancamon (filho de Akenaton e que nasceu Tutancaton), todos da décima oitava dinastia. Da décima nona, Ramsés II e sua esposa Nefertari, tido como o mais poderoso dos faraós (Moisés o conheceu bem, para quem acredita nessas coisas); é deste faraó o templo mortuário Ramesseum na área do Vale dos Reis e os monumentais templos talhados na montanha em Abu Simbel, que foram removidos em 1960 quando da construção da barragem formando o Lago Nasser em Aswan. A vigésima dinastia, incluindo de Ramsés III (que possui outro enorme templo mortuário pelo Vale dos Reis) a Ramsés XI, dentre outros, viu um gradual enfraquecimento do Egito faraônico até que ele veio a ser atacado continuamente por Líbios, Núbios, Persas, Macedônios e Assírios.
(continua...)
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