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Sofia, de Serdica ao pós-Comunismo  

Posted by carlos in

Ainda me arrependo de, quando estava em Skopje, não ter ido conhecer Pristina, em Kosovo, distante apenas 80 km. Ainda delirando com a dupla face ortodoxa-islâmica da capital Macedônia, teria sido mais delirante viajar ao norte e adentrar no ambiente Muçulmano Kosovar bem mais homogêneo. Tarde demais. Em vez disso, em Skopje pegamos o ônibus ao leste e 180 km depois chegamos a Sofia, homogeneamente Ortodoxa; a linha do trem nos obrigaria a passar pela Sérvia, num caminho bem mais longo. Depois da Bulgária, eu voltaria a viajar sozinho pois Carly, a última remanescente da turma formada em Montenegro, tomaria uma direção diferente. Ficamos neste albergue, bem jóia.

Sofia, capital e maior cidade do país, com 1.4 milhão de habitantes sendo 96% étnicos Búlgaros, fica às margens do Monte Vitosha. Parte da Trácia em eras pré-cristãs, veio a ser habitada por uma tribo Celta chamada Serdi ao redor do século IV AC, o que rendeu ao povoado o nome Serdica. Depois de conquistada por Roma ao redor de 29 AC, Serdica tornou-se capital da Dácia Romana. Destruída pelos Hunos em 447, foi reerguida por Justiniano I quando floresceu no século VI sob domínio de Bizâncio. Tornou-se parte do primeiro império Búlgaro em 809, caindo novamente em mãos Bizantinas em 1018 até ser reconquistada pelo segundo império Búlgaro. Passou então a ser conhecida pelo nome Eslavo, Sredets.

Seguiu-se então o longo período Islâmico, de 1382 a 1878, quando a cidade se tornou a capital da província Otomana de Rumélia, atraindo grande população Turca. Foi só após a liberação do domínio Otomano pelas forcas Russas que seu nome oficialmente se tornou Sofia; desde 1879 tem status de capital, primeiro do principado e depois do recém-formado reino da Bulgária. Com a derrota do Eixo na segunda guerra mundial e a entrada da Bulgária na esfera de influência Soviética, que perdurou até o fim dos anos 90, a paisagem urbana de Sofia foi muito alterada adquirindo óbvios contornos da arquitetura Comunista. Seu ponto central é o Largo, hoje com suas referências ao Comunismo removidas; em seus subterrâneos, duas passarelas exibem ruínas da antiga Serdica.

No album abaixo, um passeio pelos principais marcos da era Comunista, assim como pelas marcas que os impérios anteriores deixaram na cidade. Não nessa ordem:
Parlamento (1879); corte de justiça; a gigantesca antiga sede do Partido Comunista, no Largo, circundada por outros enormes prédios administrativos (hoje alguns deles shopping e hotel), tudo encabeçado pela estátua de Santa Sofia que em 2000 substituiu a de Lenin; Museu Arqueológico Nacional, inaugurado em 1905 na maior e mais antiga mesquita da cidade, erigida em 1474 por Mehmed II; Universidade de Sofia (1888); o belíssimo Teatro Nacional (1904); biblioteca nacional Cyril e Methodius; galeria de arte Nacional, estabelecida em 1946 no antigo palácio real após a dissolução da monarquia; o belo monumento ao exército Soviético (1954), próximo ao enorme e multifuncional Palácio de Cultura Nacional (1981); a pitoresca igreja Russa de São Nicolas, construída em 1914 no sítio de uma mesquita destruída em 1882.

Continuando com o album: igreja Sveti Nedelya, cujo prédio inicial data do século X, com sua última restauração em 1933 depois de um atentado que tomou 150 vítimas; a pequena rotunda de tijolos vermelhos da igreja de São Jorge, tida como a construção mais velha de Sofia, erigida por Romanos no século IV; igreja de Hagia Sophia, datada do século VI à época de Justiniano e que veio a dar o nome atual da cidade, construída sobre igrejas mais antigas de Serdica e reestruturada pelos séculos e impérios seguintes; mercado central; mesquita Banya Bashi (1576); a sinagoga de Sofia (1909), a terceira maior da Europa. E claro, impossível faltar a catedral de Alexander Nevsky, símbolo maior de Sofia e uma das maiores igrejas ortodoxas do mundo; nos Balcans, apenas o templo de St. Sava em construção na Sérvia é maior. Ela foi concluída em 1912 como homenagem aos soldados Russos que morreram na guerra russo-turca de 1877-1878, a qual liberou a Bulgária dos cinco séculos de domínio Otomano; pena não poder tirar fotos em seu interior, pois sua iconografia é realmente deslumbrante. Não resisti em acompanhar a liturgia Ortodoxa, muito distinta da Católica.



De Sofia, iria começar mais ao sul outra etapa muito esperada da viagem, nesse meu percurso inverso às origens iniciado em Portugal: Grécia e Turquia! Ao lado de Roma, os berços da civilização como a conhecemos nesse lado do mundo. Tinha a intenção de passar novamente pela Bulgária no retorno da Turquia, rumo norte à Romênia, passando pelo litoral do Mar Negro. Essa nova parada infelizmente não aconteceu, e Sofia acabou sendo minha única estada em solo Búlgaro.

Bulgária, centro difusor da Ortodoxia Eslava  

Posted by carlos in

A Bulgária, localizada nos ultra-heterogêneos Balcans, chegou a ser um dos maiores impérios Europeus há cerca de mil anos, estendendo-se do Mar Negro por boa parte da península Balcânica; nessa região, em tempos pré-cristãos, ficava a Trácia. As tribos Trácias foram unidas e constituíram um reino por volta de 500 AC, o qual foi conquistado pelos Macedônios (Alexandre O Grande), e depois pelos Romanos entre 188 AC e 45 DC.

No século II os Bulgars, tribos oriundas da Ásia Central, se estabelecem entre o Mar Negro e o Mar Cáspio. Mas foi entre os séculos IV e V, pegando carona com os Hunos de Átila, que parte dos Bulgars se movem mais para o Sudoeste e se estabelecem na Trácia. Chegam então os Eslavos, no século VI, que povoaram todo Balcans como detalhado nos posts anteriores sobre as seis ex-repúblicas Iugoslavas. Essas tribos deslocadas, lideradas pelo herdeiro do kanato Kubrat, Asparukh, conseguiram impor uma derrota aos Bizantinos no ano 681; esse kanato, gozando um status de certa independência, formou a origem da atual Bulgária. Outras hordas bulgars continuavam se espalhando pela Europa, e uma delas se instalou na atual Macedônia (veja o post sobre a Macedônia para a sua interconexão com a Bulgária).

Durante o primeiro império Búlgaro (681-1018), os sucessivos kans expandiram suas fronteiras chegando a anexar terras Bizantinas. Nessa época, Bulgars e Eslavos se assimilaram mutuamente; a Ortodoxia cristã e o alfabeto Cirílico foram adotados, e um centro de propagação da cultura Búlgara foi criado em Ohrid (atual Macedônia). O auge do império foi sob Simeon I (893-927); sua morte iniciou o enfraquecimento Búlgaro, até que em 1018 o imperador Bizantino Basil II conquistou o império ao derrotar Samuil. A dinastia Asen conseguiu organizar uma revolta e reconquistou a Bulgária em 1185, ano que marca o início do segundo império Búlgaro, o qual durou até sua conquista pelos Otomanos em 1396; esses dois séculos viram nova expansão Búlgara, aos poucos enfraquecida pelas batalhas com Húngaros e Bizantinos, dentre outros.

Os Otomanos, que acabaram por conquistar todo Balcans e Sudeste Europeu (também detalhado em posts anteriores), reinaram soberanos até 1878. Depois de várias revoltas por independência no século XIX, eles massacraram milhares de Búlgaros no chamado levante de Abril-1876, criando enorme mal-estar entre os Europeus. Mas foi a Rússia quem se prontificou a lutar com os Búlgaros, e derrotou os Otomanos na guerra Russo-Turca de 1877-1878, o que deu origem a um principado independente. Foi em 1908 que a Búlgária proclamou sua independência, após vencer uma batalha com a Sérvia e conquistar parte do território vizinho. Em seguida ocorreram as guerras Balcânicas (1912-1913) e as duas guerras mundiais, que proporcionaram contínuas redivisões de território pelos Balcans. Como a Bulgária entrou em ambas as guerras para o lado perdedor, viu seu território ser fatiado; o ditador-Czar Boris III, no poder de 1918 a 1943, embora tenha se aliado com os Nazistas, não aceitou integrar o plano de invasão de Hitler contra a Rússia, a chamada Operação Barbarossa. Com sua morte em 1943, o caos se implantou, o Nazismo perdeu apoio, e os Comunistas ascenderam ao poder, destituindo a monarquia czarista em 1946.

No período de influência Soviética que se seguiu, Zhivkov liderou o país de 1954 até a queda do Comunismo em 1989. Desde então, a abertura econômica trouxe seus típicos problemas de corrupção e aumento da desigualdade social, que gerou uma forte onda migratória: de 1989 a 2009, a população Búlgara caiu de 9 para 7.6 milhões. Destes, 84 % sao Búlgaros étnicos, 9 % Turcos e 5 % Ciganos; a igreja Ortodoxa Búlgara é a mais antiga igreja autocéfala do mundo Ortodoxo Eslavo, reconhecida pelo Patriarcado de Constantinopla desde 927; inicialmente em Ohrid, hoje é centralizada na suntuosa catedral Alexander Nevsky, em Sofia.

Pois bem, de volta ao turismo no próximo post.