Mostrando postagens com marcador 38_Líbano_1_Beirut. Mostrar todas as postagens

Beirute, cidade que teima em reviver das cinzas, parte II  

Posted by carlos in

(...continuação)

A diáspora fez haver mais Libaneses no exterior do que no próprio país. São atuais 4 milhões de habitantes no país, enquanto cerca de 11 milhões vivem no exterior, a maioria disparada no Brasil, 6 milhões, principalmente Sul e São Paulo. Sua história recente é tão marcada por essas guerras internas e invasões que nenhuma geração Libanesa sabe o que é viver em paz. Boa parte do centro de Beirute estava reconstruída quando eu estive por lá, menos de 4 anos após a selvageria covarde Israelense, mas isso se restringindo mais ao centro moderno, às margens do Mediterrâneo, morada de uma classe mais alta, de prédios do governo, e hoje abarrotado de estabelecimentos comerciais americanos e europeus. Em certas ruas mal se lembra que estamos no Oriente Médio, diversos prédios novinhos em folha com uma arquitetura fria e descaracterizada, ao menos para mim; mas como dizem, bem melhor assim do que com bombas caindo do céu. Afastando-se do litoral mergulhamos em uma Beirute mais real, que tem também muitos traços modernos ao lado dos tradicionais, e onde se vê ainda marcas de suas recentes guerras em prédios levemente esburacados ou completamente destruídos.

Sua cultura, arte, música, comida não me eram assim tão estranhos dada a enorme imersão Libanesa que há no Brasil e no Canadá, onde vivi e mantive boas amizades com alguns de seus descendentes. Há muito que nutro enorme admiração por esse povo e sua alma, sofrido e rica como poucos, e estava muito contente por ter me dado a oportunidade de conhecer um pouco do país. E realmente eu não me surpreendia com a enorme quantidade de pessoas que ficavam contentes quando eu falava que era Brasileiro, e que inevitavelmente falavam de algum parente que morava no Brasil, por vezes arriscando algumas palavras em Português; inclusive os donos do hotel disseram que em copa do mundo se reunem com os amigos para assistir e torcer pela seleção. Sinceramente acho que não damos o devido valor a essa gente calorosa em nosso próprio país. É difícil um forasteiro entender como essas gerações conseguem viver, conviver e superar seus traumas, sejam cristãos ou islâmicos, de costumes mais ocidentalizados ou mais tradicionais.

Beirute é naturalmente belíssima. Quase metade dos Libaneses vivem na capital, coração cultural e econômico do país, e a cidade religiosamente mais diversa de todo Oriente Médio. Seus pontos altos são o passeio pelo litoral, incluindo o Corniche, a Raouché e o bairro Hamra, a zona mais boêmia da cidade; estava louco para entrar no Mediterrâneo mas a chuva trouxe um frio infeliz por aqueles dias. Depois, ir conhecer a parte mais distante da costa e ter contato com o dia a dia mais real. Pela área mais reconstruída, no centro novo e nas proximidades das sedes governamentais, destacam-se a Torre do Relógio, a sede da ONU, o Parlamento Libanês, as ruínas do Forum Romano, e a suntuosa mesquita Al-Omari com seu domo azul, inicialmente do século XII. Pouco além fica o Grand Serail, um complexo que inclui palácio do presidente e sede do primeiro ministro, no topo de uma pequena colina, construído inicialmente como sede do poder Otomano; também valem uma visita a catedral Maronita de São Jorge e o Museu Nacional, localizado ao redor da antiga Linha Verde.

AVISO: Beirute é a décima cidade cujas fotos se perderam no assalto que sofri em Jerusalém
(detalhes no post daquela cidade, posterior); perdi um mês de fotos sem backup. Para não
ficar só na descrição, seguem abaixo alguns links da net, fotos de terceiros.

http://www.trekearth.com/search.php?phrase=beirut&type=&x=22&y=16
http://www.galenfrysinger.com/beirut.htm
http://www.tripadvisor.co.uk/LocationPhotos-g294005-Beirut.html



Ainda em Beirute queria conhecer outro destino próximo no pequeno país, para ir e voltar no mesmo dia. Acabei optando em sair do litoral e ir ao interior, em Baalbek, no próximo post.

Beirute, cidade que teima em reviver das cinzas, parte I  

Posted by carlos in

Quando o ônibus chegou na fronteira, após pagar a taxa de saída da Síria a primeira coisa seria conseguir o visto Libanês, mas esse deveria ser e foi menos complicado que o Sírio (dessa vez segui viagem no mesmo ônibus, e não se paga para sair do Líbano). Porém, meu dinheiro era insuficiente, não tinha como sacar, e acabei dando sorte pois havia outro forasteiro no ônibus que me emprestou grana na boa. Chegando em Beirute, fomos procurar um teto barato e rachamos um quarto nesse hotel; o forasteiro era americano (havia fugido da China por ter veiculado uma matéria anti-governo), e os caras do hotel não poupavam 'elogios' ao coitado por todo suporte que os EUA fornecem a Israel e pelo bombardeio Israelense que arrasou Beirute em 2006. No mesmo hotel, cujo dono ia em breve visitar um primo que morava no Brasil, residia um australiano fazendo parte de seu doutorado em Conflitos do Oriente Médio, e que conseguia ser mais anti-Israel do que eu. Obviamente nós três saíamos para nossas cervejas e narguiles, e o papo era bem interessante!

Beirute é mesmo uma cidade singular, passou e passa por tanta destruição e reconstrução, e ao mesmo tempo carrega (e talvez por isso) uma das juventudes mais vívidas do Velho Mundo. E o Líbano tem tanta proximidade conosco pelo enorme número de imigrantes forçados que aportaram no Brasil. A chegada em Beirute já valeria a visita. Passada a fronteira, a pista primeiro sobe uma serra enorme; do topo, já se avista o Mediterrâneo azul lá embaixo, as demais montanhas ao redor da cidade, algumas cobertas de neve, enquanto a capital Libanesa vai se abrindo aos poucos conforme descemos a serra.

O pequeno país possui inúmeros sítios históricos, como as cidades Fenícias de Biblos e Tyrus no litoral, e Baalbek no interior. O atual Líbano foi morada dos antigos Fenícios (1200-539 AC) que se espalharam pelo Mediterrâneo, fundando povoados por toda a costa, principalmente Cartago; criaram o alfabeto tido como o precursor dos alfabetos modernos, como o Grego e o Romano. Em 539 AC o império Persa sob Ciro conquistou os Fenícios, e dois séculos depois foi a vez do Macedônio Alexandre O Grande. O atual Líbano passou depois por mãos Assírias, Gregas, Romanas, Árabes, Turcas Seljuk e finalmente Otomanas em 1516. Com a derrota dos Otomanos na primeira guerra mundial e a posterior divisão do Oriente Médio entre França e Inglaterra o Líbano, assim como a Síria, entrou no mandato Francês. A influência Francesa é visível em Beirute onde parte da população, principalmente as classes mais altas, fala Francês. A independência Libanesa veio em 1941, embora as tropas Francesas só se retiraram após o fim da segunda guerra mundial em 1946.

O pacto nacional nesse pequeno e tão diverso país estabelece que o presidente seja um cristão maronita, o primeiro ministro um muçulmano sunita, e o parlamento tenha dois líderes, um muçulmano shiita e um grego ortodoxo. Quase inevitável, a guerra civil estourou em Beirute em 1975 e durou quinze anos; ela ainda foi agravada pela invasão Israelense no lado Muçulmano (oeste) da cidade, enquanto os Cristãos se concentravam no lado leste da chamada Linha Verde. Foram cerca de 200 mil mortos, 900 mil deslocados (20% da população), e uma enorme diáspora Libanesa se seguiu. Após longo período de reconstrução, um ano após a saída das tropas Sírias que ocuparam o país até 2005, os Libaneses celebravam seus melhores momentos; foi quando o Estado Terrorista Israelense invadiu o país por causa das atividades terroristas do grupo Hezbollah, destruindo novamente Beirute e ceifando a vida de milhares de civis inocentes.

(continua...)